Por bferreira

Rio - Outro dia tive uma surpresa arrebatadora. Cruzando uma rua perto de casa, num fim de tarde em que a até os dejetos do Rio Maracanã pareciam querer ficar de flozô, escutei sair de uma janela a voz de Elizeth Cardoso cantando o Canto do Pajé, de Villa-Lobos, com aquele chiado típico dos LPs girando nas velhas vitrolas.

Adepto que sou dessas insignificâncias que me parecem iluminar a vida, esperei terminar a faixa, tasquei a mão no celular, adiei um compromisso que tinha e sentei numa birosca para tomar uma gelada. Brindei, com direito a ovo cozido, o Brasil de Elizeth e Villa.

Não é todo dia que, em uma casa da Zona Norte do Rio de Janeiro, Elizeth canta a oração maior do nosso pai Villa-Lobos, duende das florestas do Brasil. E aí eu piro. A voz da Divina aflora a minha crença na volta do rei que se encantou, assombra o meu delírio da Aruanda ancestral e revigora o meu desejo da terra sem males, a Yvi Marãey dos guaranis.

Para combater esse Brasil veneno que se descortina na perda das delicadezas do mundo, só mesmo esse Brasil remédio de Villa e Elizeth, minha terra dos presépios mais precários, das bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste, dos enfeites das moças dos cordões azul e encarnado, e das folias que homenageiam - entre cachaças, cafés e bolos de fubá, gentilmente servidos pelos donos da casa - os Reis do Oriente. Meu Brasil de aboios, louvores, comidas, leilões de prendas, namoros, cheiros e bordados; terra de afetos celebrados que permitem a subversão- pelo rito - da miudeza provisória da vida. Meu Brasil de pajelanças bonitas, giras de encantados, rodas formosas e canções de aconchegar as dores.

E quem estava escutando Elizeth cantando Villa em uma tarde modorrenta? Quem, no fim das contas, pingou com a luz incerta da beleza um canto da floresta na escuridão do Maracanã, rio de bostas e detritos variados que navegam no rumo da triste Guanabara? Não faço ideia. Sei apenas que ouvi, na correria da cidade, Elizeth cantando Villa-Lobos enquanto a tarde caía. Tive o mesmo espanto de vida que me embriaga quando o repique anuncia a entrada da bateria, o sax fraseia Pixinguinha e o rum vira para que Xangô relampeie o mundo.

E aí dei uma de Caymmi sem talento. Abandonei o ofício, repousei num balcão e mirei o rio imundo com um carinho calado. O Maracanã virou meu Amazonas. E pensei que todo mundo deveria ter o direito ao remanso de escutar, no flozô de uma tarde quente, Elizeth cantando Villa-Lobos numa vitrola velha ao menos uma vez na vida.

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