Fernando Molica: Um menino como cada um de nós

Aylan era como aquele bebê que, diz a Bíblia, nasceu a menos de 600 quilômetros dele, em Belém

Por O Dia

Rio - Nós, jornalistas, temos que noticiar um fato e, de preferência, apresentar seu contexto. Uma boa reportagem, além de narrar o que aconteceu, deve procurar revelar as razões que geraram tal situação. É importante contar se o motorista que causou um acidente estava bêbado, se o deputado que votou a favor de determinado projeto havia recebido doações de empresas interessadas na proposta.

Mas, em alguns momentos, a busca pelo contexto pode representar uma forma de se tentar perdoar o inaceitável. Não existem razões que tornem admissíveis crimes como o holocausto praticado pelos nazistas, a tortura, o racismo e outras formas de preconceito e de agressão. Há casos que não podem ser amenizados.

Tudo que é humano pode ser compreendido, a literatura e outras formas de arte nos ajudam a entender as razões do outro, por mais absurdas que sejam. Permitem também que detectemos monstros que podem estar escondidos em cada um de nós; e somos, a história prova, capazes das maiores barbáries. Mas entender não significa perdoar ou relevar.

Jornais, sites, emissoras de rádio e TV procuram explicar os motivos que obrigaram a família do Aylan Kurdi — aquele menino de três anos que morreu afogado — a abandonar a Síria. Há meses que abordam o drama da imigração e da resistência de governos e povos em dar abrigo a tantos desesperados. É fundamental explicar o contexto de toda a crise, os problemas no Oriente Médio e na África, quase todos criados, ao longo de séculos, pelas intervenções de potências ocidentais. Mas, acima e além de tudo, há o corpo do menino. Aylan era sírio, mas também era brasileiro, palestino, etíope, nigeriano, indiano, chinês, francês, argentino, haitiano.

Ele era um menino como eu fui, como eram meus filhos quando tinham três anos. Uma criança como você já foi, como são ou foram seus filhos, netos, sobrinhos; um menino como muitos dos nossos que não têm direito a uma vida digna. Aylan era como aquele bebê que, diz a Bíblia, nasceu a menos de 600 quilômetros dele, em Belém — um menino perseguido desde antes de nascer. O contexto que gerou o sofrimento de Aylan e de tantos outros como ele é mais amplo, não se resume à geopolítica internacional. Tem a ver com a capacidade humana de tornar aceitáveis a discriminação, a separação e as barreiras que naturalizam e promovem a morte de tanta gente. A família de Aylan tentava viver, migrou o mesmo jeito que muitos de nossos antepassados deixaram suas terras em busca de paz, trabalho, amor e felicidade.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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