Leda Nagle: Trégua

O mundo real volta com toda a força depois de um feriado

Por O Dia

Rio - Gosto de feriado. Até aí, novidade nenhuma. Todo mundo gosta. Mas não gosto do feriado para não trabalhar. Até porque, em dia de feriado, sempre trabalho mais em casa do que no meu trabalho diário, como sempre constato no final do dia dito de folga. E isto não é novidade para mulher alguma. Todas trabalhamos mais em casa que no trabalho para o qual nos formarmos ou para a ocupação a que nos dedicamos.

A questão é o clima do dia. Acordo com mais tranquilidade. Abro a cortina e a mesma paisagem desgastante de todo dia parece mais leve. O engarrafamento sumiu. Aquelas três ou quatro filas de carro que vejo, da janela, a caminho do túnel, não estão no lugar de sempre. Passa um carro ou outro.

Noutro ritmo. É como se a vida tivesse outro tom. Meu banho é mais longo, tenho a sensação de que não estou desperdiçando o creme caro que comprei no salão, com a promessa que ia deixar o dito no cabelo por longos três minutos. Até me dou ao luxo de assar um pão de queijo. Não tenho aquela agonia de ler os jornais em meia hora. Afinal, não terei a gincana diária, onde é preciso dar conta de saber de tudo antes de chegar ao trabalho, ou até mesmo ao entrar no táxi, se o taxista for do tipo informado, grudado no rádio, orgulhoso da sua porção repórter.

O cotidiano não tem o mesmo peso. Hoje, o trabalho é aqui. Quem dá o ritmo sou eu mesma. Exausta, porém feliz, no fim do dia, constatarei que não saí de casa, não tive que aturar as desculpas esfarrapadas do contador, não me estressei com as chatices do dia a dia, só vivi no virtual. Nada de gente por perto. Mas o feriado acabou. Eu bem que insisti pra ele ficar. Mas preferiu partir e, antes mesmo de dar a folga por encerrada, o mundo real volta com força.Com milhares de refugiados sofrendo, chorando, morrendo do outro lado do mundo . Com intermináveis discussões sobre o que fazer com eles, com as guerras e até mesmo com os impostos nossos de cada dia.

Por aqui um acidente de ônibus deixou mais mortos na estatística do trânsito... peraí, acidente???? Mas os pneus estavam carecas, a lotação do ônibus era absurda, totalmente fora das normas, a empresa tem três dezenas de notificações, não poderia estar circulando, não cumpre as leis, ninguém fiscaliza... Acidente? Como assim acidente?

O dia seguinte amanhece como os outros. Os tiros comem solto nas comunidades ditas pacificadas, mais um adolescente morre por bala perdida, mais refugiados lutam pela vida, mais táxis continuam circulando exalando cheiro de gás. Reclamo e o motorista avisa,para me tranquilizar ou me assustar de vez, que só poderá circular com o carro nestas péssimas condições até 23 de dezembro. Será que fico aliviada ou apenas me preparo para, Deus me livre e guarde, ficar sabendo de mais uma tragédia um dia destes? Segunda-feira não foi um feriado. Foi só uma trégua.

E-mail: comcerteza@odia.com.br

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