Fernando Molica: As cúmplices tardias

Ao lamentar que a violência não tenha sido maior, as duas mulheres se tornam cúmplices dos que mataram Dona Lyda

Por O Dia

Rio - O relatório da Comissão Estadual da Verdade que atribui a três militares o atentado que matou a secretária da OAB Lyda Monteiro da Silva deveria servir como fonte de reflexão para os que querem a volta da ditadura. Como a manifestante que lamentou o não extermínio de todos os comunistas e a outra que expressou a decepção por Dilma Rousseff não ter sido enforcada no Doi-Codi.

Uma das duas manifestantes tem uns 60 anos; a outra, aparenta ser mais idosa. Ao ser assassinada, em 1980, Dona Lyda tinha 59 anos. Uma pessoa comum, que começara a trabalhar aos 16 anos, que não se envolvera com partidos de esquerda nem, muito menos, com grupos armados. Uma mulher que trabalhava numa entidade tradicional, importante, que, por sua tradição liberal, jamais poderia ser acusada de conivência com o extremismo político. Mesmo assim, foi alvo do atentado que matou Dona Lyda.

Aquelas duas mulheres parecem desconhecer que ninguém está livre do poder discricionário . Quem se julga no direito de torturar e matar adversários é capaz de torturar e matar qualquer um. Ao lamentar que a violência não tenha sido maior, as duas mulheres se tornaram cúmplices tardias dos que mataram Dona Lyda e tantas outras pessoas.

Por falar nisso. Na divulgação do relatório, o advogado Luiz Felippe Monteiro Dias — filho de Dona Lyda —exigiu pedidos de desculpas do ministro da Defesa e dos comandantes militares. Sua mãe, afinal, foi morta por homens que estavam na ativa. Um deles, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, recebeu honras militares em seu sepultamento — ele foi vítima de uma das bombas que pretendia explodir no Riocentro.

Passados 30 anos da redemocratização, chefes militares insistem em não exorcizar os crimes que antecessores cometeram durante a ditadura, uma postura que compromete as três forças. Não se trata de exaltar a esquerda armada, que cometeu erros e também crimes, como o atentado que matou o soldado Mário Kozel Filho. Mas os atos praticados por essas organizações são conhecidos, quase todos os seus autores foram presos e condenados. Muitos foram torturados. Não há, porém, registro de condenações de funcionários públicos — militares e civis — que, na ditadura, em nome do Estado, com dinheiro do contribuinte, torturaram e mataram.

Até para que a barbárie não se repita, é fundamental admitir todos os abusos. Cabe aos atuais chefes militares — que não foram responsáveis pelos crimes do passado — tirar este peso e esta mancha das instituições que representam.

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