Fernando Scarpa: Por quem sinos dobram após os ‘passaralhos’?

Louvo os que saíram, os que se libertaram da tirania e da corda bamba dentro das redações

Por O Dia

Rio - Muitos já pegaram carona no poema do escritor inglês John Donne, traduzido para o português como ‘Meditações’. Seus versos refletem sobre os conflitos humanos em condições de guerra. O mais famoso caroneiro foi Ernest Hemingway, em ‘Por quem os sinos dobram’: “Cada homem é uma partícula de um continente, uma parte da terra. Se um torrão desta terra é arrastado para o mar, o continente fica diminuído, como se fosse a casa de teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano.”

Hoje, sou eu um caroneiro desconhecido a me valer do texto para lembrar o ‘passaralho’ que vem atingindo os profissionais de imprensa nos trágicos agosto e setembro. “Torrões de terra” afastados das redações.
Em 1964, foi a ditadura, e a imprensa sofreu suas agruras, com demolições nas redações dos jornais e na liberdade de expressão. Hoje, somos livres para falar, mas os dedos que digitam as palavras que falam quando lidas foram expulsos das redações esvaziadas, supostamente por conta da crise econômica dos anunciantes, que retiraram das páginas o que sustentava as folhas da pagamento.

Essa é uma das tentativas de explicar a crise e as demissões em massa que jogaram de modo feroz profissionais de imprensa num mercado paralisado. Pego carona em ‘Por quem os sinos dobram’ e em John Donne para sensibilizar os que não foram atingidos pelo ‘passaralho’, os que ficaram no suposto seguro continente, os ‘pendurados’ ainda em seus cargos e colunas.

Reflitam política e, eticamente, a posição delicada em que se encontram. O sofrimento e a vergonha que talvez sintam, em relação aos que partiram. Cortes foram feitos sem critério, dizem alguns. As panelinhas nas redações fizeram seus acordos sujos, baseados nas amizades, sem considerar a importância de determinados profissionais postos na rua, que mais fazem falta à notícia do que as amizades.

A consequência? Empobrecimento da notícia. É isso que estamos lendo. Louvo os que saíram, os que se libertaram da tirania e da corda bamba dentro das redações, esperando o bilhete azul da derradeira despedida. É a hora tentadora de pegar a carona final e lembrar aos que ficaram... “os sinos dobram por ti”.

Fernando Scarpa é psicanalista

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