Milton Cunha: Viva os musicais cariocas!

Os nossos velhos sentem-se representados e revividos no palco pela trajetória de seus astros

Por O Dia

Rio - Diante do impacto causado pela excelência de três musicais cariocas que resgatam mitos de nossa música popular, emocionado, aplaudo de pé a qualidade das homenagens dramáticas, formadoras de incrível painel do talento de nossos sambistas. Vou tecendo minha renda de lembranças que a música me traz. E, encantado, confesso que já me imagino com a cabeça branquíssima como os que estavam nas platéias nos dias que fui. Compreendo a importância destas montagens para o emocional de nossos velhos, que se sentem representados e revividos no palco pela trajetória de seus astros.

Também isso (há fundamento antropológico na benéfica infestação), mas não só isso: nossa indústria de entretenimento alcançou o ponto de união ideal entre as forças que contribuem para o potente resultado final. Uma adição de boas dramaturgias em texto, direções acertadas e elencos, bandas e técnicos que dão conta do recado com uma dedicação apaixonada. Passam a impressão de que estão felicíssimos em cena, dado o brilhantismo dos três projetos que me fizeram um homem melhor, porque o ensinamento de luta e perseverança é grande.

O projeto Dulcina em Foco (Parabéns, Funarte!) traz dois exemplos. Ana Carbatti lidera uma “Clementina, cade você?” com a autoridade de sincera admiração pela velha senhora, cheia de carisma e doçura. Sobra competência na moça. Tudo em cima de uma mesa, que vai se transformando. Contam a história da empregada que virou estrela, espantada com um novo mundo, mas absolutamente em paz com suas crenças de toda a vida. Do humano à personagem artística, vemos a divina senhora que não separa nem nos deixa separar os dois lados da sua existência.

Está em cartaz “Ataulfo Alves, o bom crioulo”. Elegantérrimo e malandro come quieto, desfila sua vida sob a acertada direção de Luis Antonio Pilar. Tudo dá certo e embarcamos num crescendo apoteótico, que faz jus ao talento do compositor. Não fazem mais que a obrigação, que não era simples: tipo escalar o Everest. Chegam no topo, plantam a bandeira nacional, e descem rindo da empreitada. Bacanérrimo.

“Andanças, Bete Carvalho, o musical” está no chic Maison de France. Um estouro em dois atos sobre a maravilhosa Madrinha, longo sem perder o fôlego, o que em tempos de relâmpagos é um achado. Bonito é ver Rildo Hora regendo a banda, e ele mesmo novinho interpretado no palco. Aplausos para esta onda de excelência que infesta nossos palcos cariocas.

E-mail: chapa@odia.com.br

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