Rio - A minha primeira lembrança da Praça Mauá encosta do píer da enseada impressionado com a altura do Eugênio C, o navio que levaria meus avós pra uma excursão a Portugal, nove noites singrando latitudes até um próximo continete. No cais, um intenso movimento de turistas e tripulantes avançando, feito maré, aos pés dos bares na rua do desembarque. Luz neon a qualquer hora, boates como Flórida e Scandinavia eram as mais famosas da região, todas proibidas pro meu topete, todas cobiçadas pelos marinheiros da fragata militar que, dois apitos no vapor, amarrou seu casco em terra firme após seis meses em náuseas atlânticas.
Em torno, contrabandistas. Relógios suíços, uísques sem dosador, perfumes e vinhos franceses. Lembro dessa imagem: estivadores e seus burros sem rabo, entre murmúrios nos armazéns. Com o tempo, já apaixonado por música, conheci a Radio Nacional, instalada no alto do Edificio A Noite. No auditório montado no estúdio, um vazio dormia à espera dos fãs das rainhas Marlene e Emilinha. A audiência cambaleava, mas eu zanzava pelos corredores da emissora feito um sonoplasta no último capítulo de ‘O Direito de Nascer’.
Vieram a televisão e a internet, mas as ondas curtas permanecem vivas no painel dos taxistas. A Perimetral nublou os vitrais da estação, caravelas sem os ventos travados no elevado. Continuei ‘portuário’.
Fui atrás da Prainha, o primeiro porto. Passando o Largo, a Pedra do Sal, hoje, um terreiro de samba abençoado por João da Baiana. Perto, Rádio Tupi. Ao redor, o Bar Gracioso, um dos melhores filés da cidade. Subi o Morro da Conceição pensando nos mistérios da Rua Jogo da Bola. No alto, paralelepípedos e casario restaurado, o bar do Seu Elídio. Na mesa próxima à calçada a áurea do poeta Manuel Bandeira matutando os versos de Elegia Inútil. A intimidade me alçou a compositor do Bloco Escravos da Mauá e, em 2001, compus o samba- enredo pro desfile principal. A região continuou me inspirando. No CD que gravei em 2003, mais um samba nasce em homenagem: ‘Praça Mauá, Que Mal Há?’, feito em parceria com Aldir Blanc.
Pensei ter vivido todas as emoções possíveis na paixão com essa várzea carioca, mas o peito buscou ar quando num fim de tarde dobrou a Avenida Rio Branco. De certo, era miragem. Me senti em Barcelona, na Praça do Comércio, em Lisboa. Só dei por mim quando apoiei na estátua do barão.
Sim, era a Praça Mauá, braços abertos sobre a Guanabara. Em delírio, o Museu do Amanhã rasgando o chão das escunas, avança pro futuro que bate à porta dessa cidade. A maresia me renova, ocecano de esperanças, eu sou do Rio de Janeiro.