Por bferreira

Rio - Esta semana entrou em vigor na Hungria a nova lei de imigração elaborada pelo governo de Victor Orbán. A lei prevê pena de cinco anos de prisão para quem causar danos a uma cerca de arame farpado construída ao longo dos 175 quilômetros de fronteira com a Sérvia.

Orbán já havia mostrado tendências xenófobas ao mandar instalar cartazes que instam os imigrantes a respeitar as leis e a “não roubar” empregos. Somente na última terça-feira, foram presas 316 pessoas por provocar danos à cerca.

A desafortunada marcha desses milhares de seres humanos em busca de melhores condições de trabalho ou assolados por guerras e instabilidades em seus países tem sua gênese remota no colonialismo europeu, que pilhou riquezas, violentou culturas e dominou por séculos nações e povos.

No entanto, essa política não é exclusividade da Europa. Por aqui, os muros e grades servem para tentar separar ricos de pobres. Em 2009, o governo do Estado Rio de Janeiro construiu muros para segregar a população das favelas da Rocinha e do Santa Marta.

A cerca húngara, o muro que separa Israel da Palestina e o da fronteira dos Estados Unidos com o México são edificações da ideologia do medo, utilizada de forma oportunista para encobrir as desigualdades latentes do capitalismo.

Como disse bem o escritor Mia Couto: “É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram.”

A hipocrisia da política de imigração de países como a Hungria serve para criar inimigos e difundir o medo. Com isso, encobre e desvia a atenção dos reais problemas humanitários e estruturais de uma Europa que parece não aprender com os erros do passado.

Uma política que faz com que uma criança de 3 anos encontre na praia não o lúdico e imaginário castelo, mas sua própria mortalha.

Wadih Damous é deputado federal pelo PT

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