Por bferreira

Rio - O Papa Francisco está em Cuba. Na terça-feira, desembarca nos EUA. Chega aos dois países acolhido pelo mérito de haver promovido a reaproximação entre eles, após mais de 50 anos de hostilidades. O Congresso estadunidense poderia oferecer melhor recepção ao Pontífice suspendendo o bloqueio imposto à Ilha pela Casa Branca e devolvendo aos cubanos a base de Guantánamo.

Cuba é, hoje, uma nação de pouco mais de 11 milhões de habitantes dotados de forte religiosidade sincrética, mescla de cristianismo de origem espanhola com tradições religiosas oriundas da África. A Revolução liderada por Fidel, vitoriosa em 1959, não se fez contra a religião. Fidel e Raúl são de família católica e durante mais de dez anos foram alunos internos em escolas católicas.

A expropriação de empresas estadunidenses levaram o presidente Kennedy a patrocinar, em 1961, a fracassada invasão da Baía dos Porcos. O episódio levou Fidel a declarar o caráter socialista da Revolução e empurrou Cuba para os braços da União Soviética.

Com o apoio da conferência episcopal de Cuba, em 1981 iniciei o trabalho de reaproximar Igreja Católica e Estado. O momento forte foi em 1985, quando Fidel me concedeu longa entrevista, publicada sob o título ‘Fidel e a Religião’, livro a ser reeditado este ano, no Brasil. Fidel voltou a dialogar com o episcopado, e o povo cubano, a manifestar publicamente sua fé cristã.

Esse processo favoreceu a visita de João Paulo II à ilha, em 1998. Houve muita pressão da Casa Branca contra a viagem e, se a fizesse, condenasse o socialismo. João Paulo II foi, visitou todas as dioceses, condenou o bloqueio imposto pelos EUA e ainda elogiou os avanços da Revolução nos campos da Saúde e da Educação. Bento XVI visitou a Ilha em março de 2012, por ocasião dos 400 anos de aparição da Virgem da Caridade do Cobre. Também condenou o bloqueio e pediu mais liberdade religiosa. Hoje, são excelentes as relações entre Igreja Católica e Revolução.

Francisco foi acolhido pela “caliente” solidariedade cubana, que, atualmente, se estende por mais de 100 países que contam com os serviços de seus médicos e professores. Desembarcou em Havana no momento em que Cuba passa por importantes mudanças, de modo a adaptar sua economia aos novos parceiros. Todo esse processo é visto, pela população, com esperança e cautela. Só o tempo revelará o novo perfil do único país socialista da história do Ocidente.

Frei Betto é autor de 'Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista’

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