Frei Betto: Para envelhecer bem

Perder o emprego ou deixar de trabalhar por haver atingido a idade-limite é sempre motivo de preocupação

Por O Dia

Rio - Perder o emprego ou deixar de trabalhar por haver atingido a idade-limite é sempre motivo de preocupação. Em geral, as pessoas saudáveis não estão preparadas para ficar em casa de pijama, assistindo à TV ou interagindo com a internet, o resto da vida.

A velhice se tornou uma questão social. A natalidade se reduz em todo o mundo e, em muitos países, o número de idosos tende a superar o dos que se encontram em idade economicamente ativa. Os gastos com a previdência social pesam cada vez mais no orçamento das nações. Há países, como a Alemanha, que correm o risco de, em breve, terem população com mais estrangeiros que nativos.

Quem mais teme a velhice são os políticos. Conheci um que, ao atingir a idade compulsória, caiu em depressão. Como havia perdido a função de poder, perdeu também o prestígio e a motivação de viver. Enquanto no poder, todos o procuravam e assediavam. Uma vez afastado, poucos se interessavam por ele, exceto familiares e uns tantos amigos.

O poder atrai como o açúcar às formigas. Aquele que o ocupa se sente obrigado a ser cuidadosamente seletivo quanto às suas amizades. Fica sempre uma pergunta: meu amigo ou mero interesseiro? A maioria se enquadra na segunda hipótese. Uma vez destituída do poder, a pessoa é qual uma vela que se apaga. Não há mais luz. Já não atrai as mariposas. Queda na obscuridade. E surge a depressão.

Aconselho àqueles que estão prestes a se aposentar: cultivem algum hobby ou abracem um trabalho voluntário... Algo que lhes seja muito interessante, a ponto de ansiar pela aposentadoria. Assim, quando chegar o momento de se ver desempregado, não se sentirá preterido. Ao contrário, terá todo o tempo livre para entregar-se à sua motivação mais profunda.

Meu pai se aposentou precocemente, por força da ditadura militar. Como gostava de ler e escrever, ocupou-se com a literatura até transvivenciar aos 89 anos. A mesma motivação manteve minha mãe ativa até os 93. A velhice não lhes pesou.

A vocação artística é uma bênção divina. O artista está sempre entretido em criar mais e mais. Não perde o ânimo pela vida. Pelo contrário, se queixa de que a vida é breve e ele dispõe de pouco tempo para os tantos projetos que lhe passam pela cabeça.

A vida é como andar de bicicleta. Se parar, cai. Bem dizia Voltaire: “Quanto mais envelhecemos, mais precisamos ter o que fazer. Mais vale morrer do que se arrastar na ociosidade de uma velhice insípida: trabalhar é viver.”

?Frei Betto é autor de ‘Reinventar a vida’ (Vozes)

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