Jaguar: A ópera do turista doido

Acredite se quiser: consegui me perder dentro do hotel em Veneza, na Itália

Por O Dia

Rio - Não digo que foi dantesca a viagem de 35 dias em que percorremos 3.500 quilômetros de estradas na Itália — a mesma distância rodoviária que separa o Rio de Rondônia — porque nem Dante conseguiria imaginar uma façanha dessas. O itinerário teve paradas em nove cidades: Roma, Bagno Vignone, Urbino, Ancona (no Adriático), Triestre, Dolo, Veneza, Florença e, de novo, Roma, para pegar o avião de volta. Em cada uma delas, arruma e desarruma malas, dois casais espremidos numa perua Ford, que alugamos em Roma, sem GPS.

Fora as cidades em que paramos só para comer e dar umas voltas antes de pegar de novo a estrada. Veneza, por exemplo, é a cidade mais paranoica que conheci. Acredite se quiser: consegui me perder dentro do hotel. Fica num beco tortuoso perto da Praça de San Marco. Pegamos a chave na portaria, atravessamos um bar — sem ninguém para atender — e no fim de um longo e suntuoso corredor (identifiquei uma gravura de De Chirico, assinada) abrimos uma porta e saímos em outro beco, cheio de turistas japoneses, filmando e fotografando, com suas varas de selfies, tudo e todos. Dobramos à esquerda e, com a chave que nos deram na recepção, abrimos a quinta porta do outro lado do beco. Pegamos um elevador, desembarcamos no primeiro andar, atravessamos outro corredor luxuosamente decorado. Veludos vermelhos, brocados e pátina dourada em profusão. Pela janela, vimos que era uma ponte sobre um canal, descemos cinco degraus, dobramos à direita, subimos 15 degraus e finalmente chegamos à porta do apartamento 121.

É enorme. Pelos nossos cálculos, tem pelos menos 150 metros quadrados. Salão com vários sofás e poltronas, sala de jantar, cozinha, um quarto com duas camas de casal, closet, banheiro (com banheira e ducha), uma profusão de veludo vermelho e molduras douradas até no teto. Eu diria que é o apartamento ideal para um casal separado; podem coabitar sem se encontrar. As quatro janelas dão para um estreito canal com um tremendo engarrafamento de gôndolas. Que são maiores que eu pensava, devem ter no mínimo oito metros de comprimento. Os gondoleiros, de pé na popa, com um longo remo que giram sem cessar, vão tirando finos numa velocidade espantosa. E ainda sobra energia para insultar aos berros a ‘mama’ dos colegas. (Continua)

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