Por adriano.araujo

Rio - Parlamentares e cidadãos favoráveis à transformação do Estatuto do Desarmamento em Estatuto do Rearmamento deveriam dar uma olhada no vídeo, curtinho, de dois minutos, produzido por um grupo norte-americano que luta pelo controle das armas. Está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=1ORT3zqudhg .

Premiado com Leão de Ouro no último Festival de Criatividade de Cannes, o filme documenta a decisão do grupo de montar, em Nova York, uma loja de vendas de armas diferente. O estabelecimento era parecido com milhares de outros espalhados pelo país, mas as aparências enganavam, e muito. Lá, os vendedores eram atores, suas falas e as reações dos clientes eram captadas por câmeras ocultas.

O roteiro era simples: em primeiro lugar, os interessados ouviam explicações sobre a arma, seu funcionamento. Depois, sem mudar o tom elogioso, os vendedores diziam frases do tipo: “Este revólver aí é igual ao usado por um menino de cinco anos para matar sua irmãzinha de nove meses. O garoto pegou a arma no quarto dos seus pais.”

As etiquetas penduradas nos produtos expostos iam na mesma linha. Uma delas informava que o imponente fuzil é como o utilizado numa chacina que gerou 26 mortos e dois feridos. Outra, grudada num alvo, lembrava a história de uma aluna que, acidentalmente, matara seu professor de tiro.

O melhor do vídeo é a reação dos clientes. Ao serem comunicados de cada uma das tragédias, eles arregalam os olhos, abrem a boca; as armas pesam em suas mãos. É como se apenas naquele momento se dessem conta do absurdo que é manter e portar armas — segundo os responsáveis pela campanha, 60% dos norte-americanos acham que um revólver ou pistola traz mais segurança a quem o carrega (um outro filme, também premiado em Cannes, relata o caso de um supermercado que impedia a entrada de pessoas de skate ou com animais, mas não impedia que clientes percorressem seus corredores com fuzis pendurados nas costas).

Postado na internet, o vídeo da loja falsa teve repercussão imediata, conseguiu mais de 12 milhões de visualizações em uma semana. Grupos que defendem a venda livre de armas ameaçaram ir à Justiça para brecar a campanha. O recado final do filme é simples e direto como um tiro: “Toda arma tem uma história. Não vamos deixar que ela se repita.” Vale lembrar que, de acordo com o Mapa da Violência divulgado em junho, o Estatuto do Desarmamento, sancionado em 2003, já poupou a vida de 160.036 brasileiros.

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