Leda Nagle: Vida de doméstica

A pessoa que trabalha cada dia numa casa não consegue guardar na memória os objetos de cada residência

Por O Dia

Rio - Quem tem empregada doméstica todo dia não vive esta situação que vou tratar hoje. Mas quem tem diarista vai entender muito bem o que vou dizer. Quem, neste caso, não chegou em casa e, num primeiro momento, devido à mudança da decoração, achou que entrou na casa errada? Claro que nunca achei que isto só acontecia comigo mas, um dia destes, num intervalo de gravação, eu, um operador de câmera de televisão, e uma produtora de TV rimos muito com estas situações que todos já passamos.

Você sai de casa, feliz, porque a diarista foi. A casa estava precisando e agradece. Mas na volta, o susto pode aborrecer, mas não deixa de ser engraçado. Você sabe que tem alguma coisa fora da ordem... mas às vezes é tão inusitado que demora alguns minutos até a pessoa se lembrar onde mesmo que ficava aquele pequeno móvel, que está ali, bem no seu caminho e que nunca foi, até aquele momento, um empecilho a sua entrada.

Com o nosso câmera, que dividia o apartamento com um amigo, e nenhum deles prestava muito atenção à decoração, os dois sofreram para encontrar o lugar antigo onde ficava o sofá. A diarista dele tinha alma de decoradora e a pequena sala parecia menor ainda com a nova disposição dos móveis. Mas, para alívio deles, estava tudo limpo, impecável. A questão, que ficou pro dia seguinte, era só redistribuir os móveis.

Eu, confesso, tive durante anos uma diarista que, vez por outra, tinha que ligar para ela, no dia seguinte, para saber onde estava uma coisa ou outra do dia a dia que, depois da arrumação, desaparecia como num passe de mágica. A passagem dela sempre foi um acontecimento. Já fiquei sem ver o jornal da noite porque não achei de jeito nenhum o controle remoto da TV. No dia seguinte, depois de mais um telefonema, a surpresa. Estava muito bem guardado numa gaveta, que eu mesma, nunca tinha usado. Quando ela foi limpar, achou a gaveta vazia da estante o lugar ideal para os controles que ela sempre achava, espalhados, em cima do sofá. Claro que não é nada de propósito, mas que é de enlouquecer isto é.

Claro, também, que a pessoa que trabalha cada dia numa casa não consegue guardar na memória os objetos de cada residência. Hoje é um quarto e sala no Méier, amanhã um três-quartos em Ipanema, depois de amanhã, uma casa na Tijuca. Cada morador com seu jeito e suas tralhas. Fora as manias e hábitos de cada casa, que ela só vai estar em contato de novo, dias depois de passar por outras casas, outras pessoas e outros jeitos. Deve ser de enlouquecer para elas também.

Nesta conversa me lembrei de uma amiga, muito detalhista e do tipo colecionadora de objetos variados, que depois de se aborrecer muito com a diarista dela, mas sem querer perdê-la, fotografou cada canto, cada mesinha de centro e, um belo dia, entregou um álbum de fotos à diarista, para nunca mais encontrar nada fora do lugar. Pode parecer um exagero, e é. Mas deu certo e está funcionando muito bem há anos.

E-mail: comcerteza@odia.com.br

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