Por felipe.martins

Rio - Agora vem o padre do Vaticano se assumir gay, um dia antes do começo do Sínodo Católico que vai discutir a família. E a autoridade vem dizer, bombástica: o clero é amplamente gay e paranoicamente homofóbico. Bingo, eu sempre soube! Agora já estou, ator de mim mesmo, no “Os gays e o silêncio” que vivo a encenar, no corpo e nos olhos da criança que fui/sou, arregalado de pavor vendo as gravuras do livro de História Medieval. Hipnotizado pelos corpos amarrados a trancos e cruzes, com a fogueira por baixo, queimando os acusados. Sou um deles, lado a lado com o meu Santo Tribunal, que rápido me condenará, pois eu não posso ser outro em minha pele, e o júri mora dentro de mim. Prefiro a morte a ser outro. Minha

Santa Inquisição da Belém do Pará dos anos 60 e 70. Meus desejos proibidos, escondidos, sorrateiros pelos corredores das casas da vizinhança. Eu e os meninos amigos. Os órgão genitais, a culpa, a impiedosa vontade, a loucura maior, o fazer, o arrependimento menor, o passar de dias, anos, e o medo de ser descoberto! Como camuflar eu, bicha, uma mancha mariquinha afeminada naquele deserto de virilidade estereotipada? A vigilância dos adultos, a demonização do sexo entre iguais, e a prática do sexo rápido com eles, senhores, que discursavam veementes contra isto, no horário comercial. Quem eram eles? Que gente é essa que condena e pratica ao mesmo tempo? Que nome se dá a estes adultos? Hipocrisia, companheira da viagem.

Olhava os padres de meus colégios. As vestes, o cinto-cordão pendurado balançando; a fala, o silêncio, a dor. Tinha que decidir: ancorava naquele porto ou virava o pequeno bote rumo ao oceano bravio? No naufrágio, nadar, e encontrar a ilha. No cais, a masmorra eterna de não ser o que tinha nascido. A cena do menino no casco, deixando para trás a terra segura. Ouve-se a voz gravada de meu pai: “Te abro um consultório: case com uma mulher que te garanto o futuro”. Mas não havia futuro, aquele que ele pedia não havia nascido. Imperiosa força de não poder ser outro, de onde vens? E a desgraça de não poder se esconder. A pintosa, a assumida, a que não negociava. Criatura, mente que vai ser mais fácil! Negativo é muito mais difícil, e para mim impossível.

Velho fatigado, converso comigo mesmo. Autor e intérprete de meu pequenino espetáculo. Encenando-o, não enlouqueço, não me mato. Com meu marido na cama, praticando sexo calmo, não vigiado, sem precisar gozar rápido e sair correndo, vejo o quanto durou a tempestade se afastar. Mas sou todos os meninos da face da terra, fugindo dos hipócritas, alguns. Rezo a Deus misericordioso que não afunde tantas pequenas embarcações.

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