João Tancredo: Vida de gado na imobilidade urbana

Forçam o cidadão a deixar o carro em casa e utilizar o transporte coletivo, mas esquecem de oferecer um serviço que garanta a dignidade dos passageiros

Por O Dia

Rio - O que antes era alvo de crítica e até ironia só da cidade de São Paulo, hoje o engarrafamento de proporções absurdas é realidade diária no Rio. São vários os fatores que envolvem a questão, como crescimento populacional e falta de planejamento. Mas nada justifica o povo ser ainda mais sacrificado e desrespeitado, a maior vítima da desorganização do poder público.

A grande massa trabalhadora que já sofre há décadas com a péssima qualidade do transporte público, vulnerável diante de veículos em condições precárias e superlotação sem qualquer fiscalização, mais uma vez está pagando um alto preço. Não só pela dificuldade de circulação, mas pela arbitrariedade de quem sacrificou rotas que, em muitos casos, eram únicas para determinadas regiões. Uma covardia sem igual.

Somente na última semana foram mais de 10 linhas extintas na Zona Oeste, dificultando a vida do trabalhador que precisa cruzar a cidade rumo ao Centro. A partir de agora, utilizar o Bilhete Único, benefício conquistado depois de anos, se tornou uma missão impossível, já que a utilização da segunda condução deve ser no prazo máximo de duas horas ou duas horas e meia. Com isso, se gasta mais, ou seja, o cidadão tem que tirar do próprio bolso a terceira passagem por conta de inevitáveis baldeações. E ainda por cima, chegando atrasado.

Somente nessa primeira fase foram mais de 45 mil passageiros afetados, obrigados a buscar alternativas. Mas boa parcela da população está completamente perdida. Já aqueles que conseguiram de forma mais rápida estão deparando com veículos lotados, transportando o dobro da sua capacidade, colocando em risco a vida de centenas de pessoas. E isso engloba os BRTs, apresentados como a melhor alternativa para a população que depende do transporte público todos os dias.

Enfim, sob o discurso de modernização e melhorias, além de sustentabilidade, dificulta-se a mobilidade. Forçam o cidadão a deixar o carro em casa e utilizar o transporte coletivo, mas esquecem de oferecer um serviço que garanta a dignidade dos passageiros que mais parecem gados sendo transportados, amontoados uns em cima dos outros. Inadmissível.

João Tancredo é advogado especialista em Responsabilidade Civil

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