Wadih Damous: A morte do direito e o bimbalhar dos sinos

Conservadores aprovam projeto de lei que dificulta o atendimento às mulheres vítimas de violência sexual

Por O Dia

Rio - Em um texto já muito antigo, publicado em um vespertino de Lisboa, o escritor José Saramago recorda uma história do século 16, passada em uma pequena aldeia de Florença, na Itália. Nessas aldeias, as badaladas dos sinos comandavam o cotidiano dos moradores. Eis que, um dia qualquer, se ouviu o toque de finados, mas não havia informação de que alguém daquele lugar havia passado desta para melhor.

Atordoados com o inusitado, crianças, homens e mulheres, todos saíram das suas casas, deixaram suas lavouras e se colocaram à frente do átrio da igreja. Com o sino ainda a ecoar por toda a vila, viram um camponês sair à porta. Ao ser indagado onde estava o sineiro e quem havia morrido, ouviram como resposta que ninguém havia morrido e ele próprio foi quem subiu ao campanário para anunciar que o direito havia morrido.

Aquele pobre homem, calejado trabalhador, cansado de ver suas terras cada vez mais diminuídas pela ganância do latifundiário e após recorrer em vão à Justiça, decidiu decretar ali na igreja da aldeia a morte do direito.

Ao participar dos debates legislativos na Câmara dos Deputados, tenho, por vezes, vontade de fazer como o lavrador de Florença e correr para alguma igreja e, lá, tocar os sinos de finados, na esperança de que alguém faça alguma coisa.

Sem qualquer pudor, ruralistas e latifundiários tentam se apossar, como aquele inimigo poderoso do camponês florentino, da competência para a demarcação de unidades de conservação ambiental, terras indígenas e quilombolas, através da aprovação da PEC 215.

Conservadores aprovam projeto de lei que dificulta o atendimento às mulheres vítimas de violência sexual, criminaliza os profissionais de saúde e impede que o poder público sequer possa informá-las de seus direitos.

No Congresso inexistem campanários, mas as badaladas daquele desconhecido camponês de Florença continuam a ecoar incessantemente pelos seus infindáveis corredores, mesmo que a maioria dos seus integrantes não ouça e sequer tenha algum apreço por pobres e camponeses.

Wadih Damous é deputado federal pelo PT

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