Júlio Furtado: O professor e o policial têm muito em comum

O professor e o policial são dois profissionais essenciais ao bom funcionamento da sociedade

Por O Dia

Rio - Em conversa com uma amiga policial, ela me disse ter enviado para colegas de trabalho o meu texto ‘O que te move, professor?’, publicado nesta página há 15 dias, em homenagem ao 15 de outubro. Todos ficaram profundamente mobilizados com a mensagem. Pensando a respeito, cheguei à conclusão de que se tratou de profunda identificação contextual. O professor e o policial são dois profissionais essenciais ao bom funcionamento da sociedade e que só conseguem exercer bem seus papéis se forem movidos por verdadeira vocação e idealismo. Além disso, ambos possuem, atualmente, uma imagem ruim perante o público, são mal remunerados e enfrentam muitos problemas estruturais para exercer dignamente suas profissões.

Vendo reportagem sobre pesquisa que aponta o nível de satisfação dos policiais de UPP com seu contexto profissional, pude perceber muito mais semelhanças do que se pode imaginar com a situação dos professores. A maioria não se sente apoiada pelas comunidades a que servem. No caso dos professores, leia-se pais dos alunos no lugar de comunidade. Ambos se sentem desprotegidos diante das tarefas que precisam realizar diariamente. Alguns policiais levam pedradas e são xingados. Alguns professores são agredidos e ofendidos por alunos. Muitos policiais e muitos professores declaram que só continuam na profissão por questão de sobrevivência. As semelhanças não param por aí. Grande parte dos professores e dos policiais afirma estar pessimista com relação ao futuro de seus papéis na sociedade. Ambos são retratados pela mídia como coitados, incompetentes ou heróis destemidos. Onde estão os professores e policiais que cumprem o seu dever?

Essa mesma amiga enviou-me um relato emocionado de colega que se sentiu altamente valorizado quando tentava atravessar a rua de muletas, em frente ao hospital militar, e um motorista de ônibus parou o trânsito para que ele atravessasse, num gesto de gratidão e reconhecimento. No mesmo instante, lembrei-me dos relatos de professores que conheço afirmando que o que os fazem seguir em frente são momentos em que ex-alunos lhes agradecem por tudo que fizeram. A crença no ser humano é o que move o professor. Coragem e altruísmo é o que move o policial. Mas o contrário também serve.

Júlio Furtado é professor e escritor

Últimas de _legado_Opinião