Jaguar: O Marechal não estava na lista

Ressuscitou o Carnaval de rua e as marchinhas tradicionais, que estavam sendo esquecidas

Por O Dia

Rio - Êpa, na banca de um camelô no Leblon, um livrinho meu: ‘Ipanema — se não me falha a memória’. Tem um capítulo sobre a Banda de Ipanema que começa assim: “Marquei encontro com Ferdy Carneiro para falar sobre a Banda, proposta dele, saudoso da Banda de Ubá. ‘Trouxe a certidão de nascimento dela’ — e me estendeu um envelope. Abri. Tinha um papel com um desenho meu.

Abaixo, 28 nomes escritos na minha caligrafia horrorosa, sem data, coisa no mínimo incomum em certidões. ‘Lembra?’, perguntou. ‘Deve ser de quando eu era chargista da Última Hora.’ ‘É de 64, logo depois do Golpe. A gente estava no Janga, você topou a ideia e começamos a fazer a lista dos fundadores.’ Para quem bebe, Ferdy tinha uma memória invejável. ‘Por que 28?’ ‘Porque quando chegamos no 28, você disse: vamos parar por aqui, a Banda já está na rua.’ Encabeça a lista o Ferdy, autor da ideia. Depois eu, Raul Hazan, economista, Ziraldo e mais 24. Estranhei que Albino Pinheiro, o Fidel Castro da Banda, nosso líder, estava no 19º lugar.” O Albino depois assumiu o comando, conseguindo autorização para desfilar, convocando músicos, escolhendo o repertório. Ninguém da Banda tocava, só fingia que tocava os instrumentos na hora da saída.

Depois era com os músicos do Maestro Sodré, do Bola Preta. Ressuscitou o Carnaval de rua e as marchinhas tradicionais, que estavam sendo esquecidas. A primeira saída foi, como sempre, duas semanas antes do Carnaval. A concentração foi no Jangadeiros. O hoje desbotado pendão aurirrubro, criado por Ferdy, teve como porta-bandeira Maria Vasco. Leila Diniz foi a primeira madrinha. Ferdy fez também duas faixas cujos dizeres não significavam porra nenhuma: Titche Rânin e Yolesman Crísbeles, esta de um maluco-beleza que perambulava pela Central do Brasil. O que nos deu muita aporrinhação. Agentes da Inteligência (risos) do Exército achavam que eram mensagens subversivas em código. Incomodava a direita, e muitos da esquerda não entendiam que o riso é uma arma contra a boçalidade fascista. Na lista estava o nome de Ferreira Gullar. Não me lembrava disso; nem, possivelmente, o poeta.

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A Banda de Ipanema está no ‘Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro’, de Alvaro Costa e Silva (Marechal, nas redações, e Alvinho, no Lamas). O lançamento é hoje, às 13h, na Folha Seca (Ouvidor 37, Centro). O Marechal não estava na lista dos fundadores; na época era dimenor. Mas viu a Banda passar.

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