Rio - O que esperar de uma candidatura de esquerda à Prefeitura do Rio, em 2016? Aqueles que viveram os anos 80 diriam que já não se fazem tais candidaturas como antes. É verdade que o trabalho precário e a privatização de serviços públicos tem transformado os trabalhadores em ‘patrões de si mesmos’, em busca da renda que nunca chega para o consumo de bens essenciais. Assim, desaparecem ou se desfiguram formas tradicionais de organização (sindicatos, partidos, associações), que em décadas passadas sustentaram governos de esquerda, que chegaram a implantar educação pública integral, encampação de viações e gestão participativa.
A defesa do direito à cidade, a serviços e bens públicos que permitam condições dignas de vida para a população segue como norte. E é por isso que uma candidatura de esquerda precisa atacar, de modo explícito e decidido, o atual modelo de gestão subordinado aos interesses de grandes grupos privados.
Alguém dirá que o domínio destes tubarões sempre existiu e que, se ontem já não se conseguia combatê-lo, imagine hoje. O controle por eles da máquina pública é hoje extremo e despudorado.
Portanto, um programa de esquerda precisa afirmar, por exemplo, que vai reavaliar a concessão para Odebrecht e Queiroz Galvão do saneamento da Zona Oeste, que, de forma vergonhosa, não prevê o atendimento de áreas de favela. E que equipamentos públicos culturais, como no caso dos museus do Amanhã e de Arte do Rio, sejam geridos de forma democrática, e não pela Fundação Roberto Marinho. No Porto Maravilha, rever a concessão à Odebrecht e OAS, contemplando amplo programa de habitações de interesse social. Os imóveis da Vila dos Atletas, sob controle da Carvalho Hosken, deveriam ser destinados, após as Olimpíadas, à população de baixa renda. Já no transporte, cabe abrir a caixa-preta da Fetranspor/RioCard, revertendo os abusos, comprovados até pelo Tribunal de Contas, nos preços das passagens de ônibus.
Se as propostas aqui podem variar, a direção é uma só: resgatar das mãos privadas a possibilidade de se governar em favor das maiorias. É o que se espera de uma candidatura de esquerda, que transmita para a população uma mensagem clara e corajosa de mudança.
João Roberto Lopes Pinto é professor de Ciência Política da Unirio