Por bferreira

Rio - Gosto de andar de táxi no banco da frente, conversando com o motorista. Há algumas figuras impagáveis que trabalham na praça; gente que tem histórias da rebimboca da parafuseta para contar. Em certa ocasião, por exemplo, fui conduzido por um coroa que viveu um perrengue dos diabos. Contou-me ele que, quando ainda estava começando na praça, ao pegar a Avenida Pasteur, na Urca, foi parado por um senhor vestido com impecável uniforme branco. O distinto pediu para ir ao Souza Aguiar. Dava a pinta de ser um médico da melhor qualidade.

Quando o táxi desceu o Aterro do Flamengo, o motorista reparou que um furgão seguia o carro. Para piorar, assim que o táxi se aproximou do Monumento aos Pracinhas que combateram na Segunda Guerra Mundial, o passageiro, até então gentil e pacífico como um periquito de realejo, bateu continência e gritou: “Sentido! Avante! Repita comigo, motorista.” Acuado, o taxista foi obrigado a dirigir com uma única mão, enquanto a outra batia continência, conforme as determinações do passageiro. O sujeito continuou: “Paisano, eu vou dizer uns nomes e você, batendo sempre a continência, responde ‘Presente!’”. E danou de gritar: “Marechal Mascarenhas de Moraes! Marechal Zenóbio da Costa! Marechal Cândido Mariano Rondon! Marechal Floriano Peixoto! Marechal Deodoro da Fonseca! Marechal Hermes...” Só aí, enquanto respondia “Presente!” e fazia o milagre de dirigir batendo continência, o taxista reparou que o furgão que seguia o carro era uma ambulância do Pinel, o hospício da Praia Vermelha.

Numa manobra arriscada, ligou o alerta, diminuiu a velocidade e parou o carro no acostamento. A ambulância encostou atrás. O doido, aos berros, exigia a presença do chefe do Estado-Maior das tropas inimigas para negociar a rendição. Passado o susto, o taxista foi comunicado da fuga espetacular que o tantã, que roubara o jaleco de um médico, executou. Na hora de entrar na ambulância, o da pá virada, recomposto e com modos de um perfeito cavalheiro, pediu escusa e disse que o ataque frontal das colunas inimigas impediria que ele honrasse de imediato o compromisso, pagando pela corrida o preço justo.

Avisou, porém, que tinha decorado a placa do veículo e faria o possível para quitar, em futuro próximo, a dívida contraída. Três semanas depois, o motorista recebeu pelo correio um envelope com o dinheiro da corrida e uns caraminguás como gorjeta. A honestidade do lelé da cuca, repito aqui as palavras do taxista, foi a prova de que o ser humano tem jeito.

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

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