Por bferreira

Rio - O lançamento do novo livro do Ruy Castro, ‘A Noite do Meu Bem’, foi disputado. Reencontrei Jaguar, o maior de todos. Se desculpou pela queda das ações da Underberg, um amaro brasileiro, e me garantiu que, por prescrição médica, só bebe escondido. A chegada do imortal Carlos Heitor Cony mexeu comigo.

Apertei suas mãos, as mesmas que escreveram ‘Quase Memória’, e ouvi sua voz grave, timbre de antigos telejornais, se despedindo. Na fila, maestros de letra e música como Hermínio Bello de Carvalho e Francis Hime, heróis anônimos da nossa cultura, Gravatá e Tarik de Souza.

Falante em rodas de samba, sou tímido diante desses encontros de repercussão. Numa gentileza digna de cerimonial, Ruy interrompia os autógrafos pra ir buscar, pessoalmente, personagens recuperadas nos melhores capítulos do samba-canção. E, assim, Ellen de Lima, Dóris Monteiro e a minha querida Leny Andrade, mãos dadas com o orgulhoso anfitrião e aplaudidas por todos, “furavam” a vez na ofegante caneta de tanto se curvar e tatuar assinaturas.

Em tempo: “Do meu repertório, Leny emprestou sua voz em algumas canções. Lembro de cinco, pelo menos”.

Quando me dou conta, o rosto de sempre, sorriso e humildade, um ídolo meu, João Roberto Kelly. Amnésia renitente, penso que o programa se chamava ‘Gente do Rio’, cenário improvisado e ele quase em close com o seu piano de armário. Sede de aprender, usava olhos de lupa pra entender visualmente os seus acordes.

Sempre batizou suas canções com pequenos nomes como ‘Gamação’, ‘Boato’ e ‘Mormaço’, todas inesquecíveis pra muita gente. Devo arriscar que Kelly mora em Copacabana pelo seu andar carioca. Sem pesquisar, garanto ser de sua autoria a maioria das marchinhas de Carnaval tocadas nos salões da cidade. Esse trânsito de versos e ritmos me arrepia. É rir da própria piada, realizado até a espinha da alma, merecido ‘papo pro ar’, João Roberto Kelly.

Volto ao livro, um filme de época do Rio de Janeiro. Ruy arquiteta a Zona Sul em preliminares pra compor o primeiro samba-canção.

São garçons, bailarinos, naipes de sopros, noite alta e boemia. Tudo alinhado, vozes, amores, lampiões, veludos e cortesãs, uma civilização perdida pela urgência humana em ser insatisfeita.

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