Leda Nagle: Saudades das cartas

Hoje, nas caixas de correio da casa da gente não existem mais cartas. Só contas. E muitas propagandas

Por O Dia

Rio - Sim, eu li a carta de Michel Temer e também a da Dona Sônia Maria, reproduzida ontem na capa do DIA. E concordo. A indignação de Dona Sônia contra tanta roubalheira e patifaria que partem de quem deveria estar zelando por todos nós, a classe política, é a mesma de milhões de brasileiros. Mas essa troca de cartas repentina me despertou uma espécie de nostalgia. Faz tempo que não ouvia falar nisto. De vez em quando um telespectador ainda me escreve uma carta. Mas em tempo de e-mails, zap zap, Facebook, a comunicação se dá através deles, e a carta se transformou em objeto raro. Perdeu.

Mas confesso que fiquei com vontade de voltar a escrever cartas. Relembrei de vários livros publicados reunindo cartas entre grandes nomes da literatura. Senti saudades de como foi importante para mim, ler, por exemplo, ‘Cartas a um jovem Poeta’, de Rainer Maria Rilke. E fico pensando que nunca mais teremos livros com as trocas de cartas entre grandes escritores, tipo Fernando Sabino e Mario de Andrade, Drummond, Clarice Lispector. Nunca mais os museus terão cartas como as cartas da Marquesa de Santos.

As crianças ainda escrevem cartas, mas só nesta época do ano, para pedir coisas a Papai Noel. Agora pedem iPad e celulares. Não pedem mais uma boneca que fala ou que ri ou que se movimenta. Agora pedem Barbies específicas: a da balada, a do verão, a Fashion, a Barbie do rock , o trailer da Barbie. Os tempos são realmente outros. Hoje, nas caixas de correio da casa da gente não existem mais cartas. Só contas. E muitas propagandas. E fico pensando nas cartas que escreveria hoje. Para políticos em geral, como fez brilhantemente a dona Sônia. Falando da decepção com eles. Para as autoridades da cidade, reivindicando melhorias tipo um quebra- molas, um sinal de trânsito, uma placa indicando um caminho.

Para os amigos? Contando falando de sonhos e planos. Para os Sacs das empresas? Reclamando da ineficiência do serviço deles. Mas será que eles leriam estas cartas? Acho que não. Se perderiam nas pilhas de papel que se acumulam nas mesas das repartições ou seriam lidas por secretárias entediadas. É melhor mandar e-mails, reclamar pelo Twitter, pelo Facebook , cujas mensagens se espalham mais rapidamente e incomodam mais. A correspondência de hoje é efêmera, rápida, imediata. As de ontem eram cartas de amor e de desamor, como as cartas entre Eufrazia e Nabuco que a brilhante Ana Maria Machado citou no livro maravilhoso que acabou de lançar: ‘Um Mapa todo seu’.

E-mail: comcerteza@odia.com.br

Últimas de _legado_Opinião