Moacyr Luz: Noel e a árvore de Natal

O bom Noel, carioquíssimo de Vila Isabel, completaria 105 anos se estivesse vivo

Por O Dia

Rio - Outro dia, quase um mês, li um comentário interessante defendendo as festas de Halloween comemoradas com a grafia original, inglesa. Em sua versão, ao criticar as poções mágicas, vassouras e abóboras iluminadas, um roteiro adaptado, o sujeito se contradiz ao arrastar o filho pra tradicional foto com o Papai Noel no 1° piso do shopping local. Eufórico, avatar ao lado esquerdo, continua: - "Papai Noel numa carruagem de renas, veludo até o pescoço, barba de asfixiar um gogó agitado, ser aceito no verão carioca, só pode ser entubação de alguma comissão de ética.

Continua, desenrolando a serpentina: “E o Carnaval?” Não tem nada de favela! nasceu em Veneza, época em que por aqui, muito antes do Cacique de Ramos, o único índio sambista era o Araribóia". O gaiato deita falação nas fogueiras juninas, relembra que o futebol é inglês, e chega literalmente ao extremo de desvalorizar o Réveillon em Copacabana: “Ano Novo começa na Antártida”.

Pra não me atirar em congressos de discussões folhetinescas, antecipo ao leitor já com os pés na manjedoura: “O Noel do título acima é o carioquíssimo morador de Vila Isabel, Noel de Medeiros Rosa”. O gênio que hoje completaria 105 anos, se vivo fosse, compôs quase trezentas músicas até morrer em 1937, 27 aniversários. Um politeísta apostaria que o autor de ‘Conversa de Botequim’ bateu papo com alguma mosca de balcão que zumbiu no pé do seu ouvido: “ Capricha porque tu vai voar cedo”...

Pois bem, esse homem que salvou o Brasil de polcas, valsas vienenses e granadas, tomando pro nosso enredo musical o vocabulário cotidiano, o subúrbio e suas ácidas biroscas, teve sua perna e braço esquerdos, decepados por um vândalo anarquista. Sim, era uma estátua, pele esculpida em bronze, mas é um símbolo. Pra mim, compositor, um santo dos mais cultuados.

Penso na cidade e na imensa sombra saindo dos becos alcalinos pra roubar a tua alegria, o seu contatentamento. Levam os óculos do Drummond, a buzina do Chacrinha, o bigode do Caymmi, e, recente, as cordas do violão do maestro Tom Jobim. O cuidado com erosão pela exposição natural é mínimo diante desses bandos de loucos, me perdoem a alusão. Noel amanhece sem o braço e a mão que escreveu os versos de ‘Feitio de Oração’, ‘Fita Amarela’ e ‘Último Desejo’. A natureza humana.

Amanhã, num esforço quase exotérico, acendem-se as luzes da árvore da Lagoa. O vento deburrou "galhos", arrancou "ramos" quebrando ao meio o tronco dessa forte tradição natalina. Senti a cidade se partindo feito um filme futurista. O espelho d'água refletindo o fim de uma civilização. Exagero, eu sei, mas é assim, sem memória, sem herança, que a casa vira pó, a foto esmaece, um chafariz agoniza, ressecado.

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