Por felipe.martins

Rio - Subi a Ladeira da Conceição e olhei a Santinha no meio do Largo, sobre a Praça Mauá. Era um fim de tarde lindo deste sábado que passou. Nem imaginava a tempestade que viria a seguir, e não estou falando do aguaceiro que caiu por volta das sete da noite. Falo do debate sobre sexualidade do qual participei, junto com uma transgênero e uma cis (explicando mais esta denominação moderna: a mulher transgênero nasceu homem, e a mulher cis nasceu mulher, então, sendo todas mulheres, são diferentes em dois grupos; mas acho que quantas existirem, quantas serão únicas). O que eu era? Qual a minha denominação, porque gay já não basta: dentro do grande grupo, devo ser da prateleira das pintosas, mas também tenho chance de estar na gaveta das “celebridades”.

Mandaram-me abrir, e abandono o palhaço e mergulho no penhasco: sexualidade é solidão. Você nasce com a sua e fica lá ruminando seus desejos, muitos escondidos, e vai vendo com o passar dos anos com quem você é parecido. Ainda que a maioria exercite a sua sexualidade com outros seres, sexualidade é solidão, pois no seu espírito dançarão seus tesões, suas pulsões e isto só se dá dentro de você, e boa sorte.

A loura voluptuosa à minha esquerda emenda: “Sou Indianara, sou trans, sou puta! A prostituição é um direito constitucional nosso, nós queremos e escolhemos ser putas. Estamos organizadas politicamente e tentando regulamentar no Congresso a profissão. Não nos calem, não falem por nós, putas. Nos perguntem o que queremos, não precisamos de bengalas. E não confundam prostituição com exploração de menor, seja ela sexual ou não. Pais que espancam seus filhos estão explorando estes menores.”

Eu já não sabia de que cor eu estava: amarelo passado, vermelho admirador, roxo engomado. Foi quando a mulher cis, Gabriela, emendou: “Sou feminista abolicionista; queremos abolir a prostituição como opção a ser escolhida pois entendemos que, neste contexto milenar patriarcal-machista, a liberdade não é verdadeira, pois, desde que nascemos, a cartela de opções não é boa. Vocês aí da plateia, vocês que batem punheta vendo filmes eróticos, 70% destas estrelas pornôs se matam, pois viveram experiências traumáticas. Vocês consomem sexo e não pensam naquilo como pessoas, como gente, para vocês são objetos.”

Puxei o microfone: e ainda tem a superestimação da penetração, quem come é o bacana, quem dá, mulheres e afeminados, são menosprezados. Os ativos são mais valorizados que os passivos. Acabou este espaço do jornal e não tenho como contar nada. A cara que vocês estão fazendo foi a tal tempestade que caiu na Conceição. Todo mundo passado! Muito maluco no mundo!


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