Por bferreira

Rio - Papai Noel, escrevo estas mal traçadas linhas antes desejando te encontrar em paz e saúde, com lucidez e plena capacidade de trabalho. Quando criança, fui teu maior fã. Adolescente e adulto esperto, sabia que não eras real. Depois, a vida me mostrou tantas coisas inacreditáveis que voltei a acreditar em tua magia. Hoje, confesso, em tempos de pedaladas, petrolão, delação, lobistas, doleiros e cavaleiros do apocalipse, acredito também em saci-pererê, mula sem cabeça, vampiros, feitiços e almas penadas. Perdi a capacidade de desacreditar; afinal, sou brasileiro, setentão, e isto basta para que saibas o que tenho visto e ouvido com estes olhos e ouvidos que um dia a terra haverá de comer, espero, daqui a 40 anos.

Com certeza, este Natal será um dos mais difíceis de toda a tua longa vida. Então, se queres continuar como Papai Noel, põe teus olhos no mundo, põe o mundo nos teus olhos e vê se não choras. As crianças querem educação, além de trabalho e renda para seus pais, e nesta brutal crise ética, com recessão e inflação, não respondas só distribuindo brinquedos baratos de plástico.

Voa, Papai Noel, por baixo dos pés do mundo! Corta teu cabelo e tua barba, encolhe tua barriga e para de prometer a paz, com justiça social e desenvolvimento! Tu não és mais o senhor do tempo e das estrelas! Passou o tempo de passarmos o tempo sonhando. Crianças que esmolam nos sinais, que dormem nas calçadas e se prostituem, não se enganam mais com tuas cópias malfeitas e suadas que tiram fotografias instantâneas pelas cidades.

Estamos cansados da estória do Papai Noel que “...não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre...” porque te esqueces de muitos de nós. Há poucas mesas fartas reunidas no bem e na esperança, e tu também acabarás sem emprego, Velho Noel, e ai de ti, encostado na Previdência, apesar de teu tempo de serviço.

Acorda, Noel, troca de roupa e ... ação! Chega de ho, ho,ho! Constrói um novo tempo, lavando a jato os vampiros que sugam a riqueza e a honra da nação. Se perdemos o tempo, quem sabe o que tua lágrima fará brotar da terra ácida? Sei que recebes zilhões de cartas, mas olha com piedade para o Brasil.

Pessoas más e corruptas não merecem presentes: deveriam substituir vacas em presépios ou renas em teu trenó. Papai Noel, te amo! Panta rei.

Ruy Chaves é diretor da Estácio e da Academia do Concurso

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