Por thiago.antunes

Rio - Há certa doçura na festa de Natal: o reencontro familiar; a alegre expectativa das crianças; a mesa farta (para quem pode); a celebração do nascimento de Jesus (para quem crê); o recesso no trabalho. E algo arde no coração como pimenta braba: o presente compulsório; o consumismo papainoélico; a crise brasileira; a violência global. Tempo de doçuras entremeado de amarguras.

Em tudo a fantasia nos precede. Daí a ânsia em desembrulhar presentes de Natal. O que sairá do pacote? Da casa em que habitamos à roupa que vestimos, tudo se fez, primeiro, antes de se tornar realidade, fantasia. Por isso, nunca morre o menino que um dia fomos. O mundo seria insuportavelmente asfixiante sem a beleza da fantasia.

Natal é época de deixar a fantasia solta. Não a que encobre o corpo, reservada ao Carnaval. Mas a que inebria a alma. Livrá-la de tudo que a polui: ressentimentos, mágoas, invejas. Sintonizá-la com os valores encarnados pelo Menino Jesus — Deus entre nós. Sobretudo, fazer-se presente em vidas repletas de ausências: de saúde, de dignidade, de liberdade, de afeto, de autoestima.

O presépio em família, recoberto de lirismo, sublima o relato bíblico que enfeixa tantos fatores infelizmente atuais: Maria e José, recusados na casa da família, ocupam um pasto na periferia de Belém; para fugir da opressão, Maria, José e o Menino emigram para o Egito. Deus presente na conflitividade humana.

Celebrar o nascimento de Jesus é, no mínimo, renascer com ele. Deixar morrer o egoísmo que nos impregna e fazer emergir todas as boas energias que fazem do amor a matéria de todo programa centrado no advento de novas relações, pessoais e sociais.

Para se fazer uma festa, a receita é simples: convidar um punhado de gente, misturar em torno de uma grande mesa, acrescentar bebida e comida sem sabor de comunhão. Agitar com bastante música, rechear com muitos presentes, e servir como se fosse Natal.

Já a receita para se fazer um Natal requer reunir um grupo de irmãos e irmãs, ligados pela mesma fé, unidos em uma única esperança. Adicionar Cristo e deixar fermentar até nascer o homem e a mulher novos. Servir evangelicamente a quem tem fome e sede de justiça. Como os pastores de Belém, devemos dar glória a Deus, na esperança de que esta menina tão bela e frágil, a democracia brasileira, não seja sacrificada pelos acordos oportunistas de Herodes. Feliz Natal, Brasil.

Frei Betto é autor de ‘Fome de Deus’ (Paralela)

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