Eduardo Alves: Superar o sentimento do Brasil pior

É necessário construir uma cultura com amplo direito à diferença

Por O Dia

Rio - Para fazer justiça ao título, inicio afirmando que, para alguns, o Brasil pode estar pior. Pior porque os 20% com maior renda e que ocupavam, antes, 60% das vagas das universidades públicas hoje ocupam cerca de 30%. Também porque a renda dos mais pobres ampliou em 129% em 13 anos e isso, para alguns, não é bom. Pode ser que a ampliação de negros e pobres nas escolas de Ensino Médio e em universidades públicas tenha sentido negativo para alguns. Pode ser que o fato de ter mais gente viajando de avião, tendo mais acesso a livros, shows, cinema, seja algo ruim para alguns seres humanos. A realidade criou ambientes que estão mais próximos do meu desejo que os que eu tinha acesso anteriormente. Não posso fazer parte, portanto, do grupo que considera que o Brasil piorou.

Mas sou do grupo que sentiu a vida melhorar nos últimos 12 anos e quer mais. Estou entre os que consideram que os principais problemas do Brasil são: poucos e frágeis ambientes democráticos para além do voto e poucas políticas públicas para superação de desigualdades. Inegável que o Brasil é hoje mais democrático. Quando eu era jovem, os que iam para às ruas eram considerados de esquerda. Agora tanto esquerda, quanto direita, conservadores ou progressistas, contemporâneos ou anacrônicos, ocupam ruas, fazem movimentos, param o trânsito, podem ser chamados de arruaceiros; como muitas vezes fui no passado.

E isso é um avanço. Insuficiente para essa jovem e frágil democracia, mas um avanço. Doloroso hoje é ver que jovens — pretos, favelados, moradores de periferias, pobres — ainda morrem por ação direta da violência do Estado ou indireta, pela predominância de uma cultura racista na sociedade. Superar essa ‘desigualdade mórbida’ é uma ação urgente do Estado. É necessário construir uma cultura com amplo direito à diferença, e políticas públicas que defendam a vida e a dignidade humana em todas as dimensões.

Mas isso será produto de uma disputa, pois há um grupo que deseja retirar o que foi conquistado no rumo de um país mais igualitário e democrático. Contradições da democracia. E olha que precisamos de mais democracia, muito mais controle social do que já conseguimos. Demandamos mais direitos: desafios do Estado e da sociedade em exigir e conquistar.

Eduardo Alves é sociólogo e diretor do Observatório de Favelas


Últimas de _legado_Opinião