Por bferreira
Rio - O Réveillon de Copacabana é talvez a melhor de todas as nossas insanidades. Além de inverter a lógica da ocupação da cidade — os donos das ruas passam ser os pedestres, e não os carros —, reúne milhões de pessoas em torno de uma abstração e da busca de beleza. É incrível que tanta gente se desloque, às vezes de muito longe, para acompanhar 16 minutos de explosão de fogos. Anos são convenções, embalagens em que encaixamos um conjunto de dias. Mas é bom que tenhamos oportunidade de, volta e meia, acharmos que daqui pra frente tudo vai ser diferente (e como o dia 1º caiu na sexta, o início de todas aquelas promessas foi transferido para hoje).
É quase impossível associar a praia lotada nas noites de 31 de dezembro com a cidade violenta e injusta, que pega, mata e come tantos de seus filhos. A paz que reina por lá chega a ser incompatível com a nossa folha de antecedentes — e olha que boa parte do público está bem longe do estado de sobriedade. Mesmo assim são raros os conflitos, as brigas, os assaltos, ninguém jamais ouviu falar em arrastão na festa.
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Arrisco dizer que a tranquilidade tem a ver com a esperança, algo que existe até nos mais sórdidos corações. Natal virou uma data em que fazemos um balanço do ano que passou, algo quase sempre acompanhado de alguma frustração, da sensação, como definiu Nei Lopes, de não termos sido nem metade daquilo que sonhamos ser. Já o Réveillon aponta para o futuro, com o que poderemos alcançar. Daí a disposição de encarar caminhadas, ônibus e metrô lotados em troca de alguns minutos de encanto.
Em muitos países, fogos são usados para marcar a virada do ano. Trata-se, afinal, de um espetáculo sempre único, uma edição é sempre diferente da outra. Uma festa maior aqui, meio caidinha acolá, mas uma festa. Um brilho intenso que dura pouco e que dá lugar a um vazio, à escuridão. Uma celebração que, por todas estas características, parece resumir a vida, algo particular, que nunca se repete, mas que sempre se renova. Peregrinar em direção a Copacabana é uma forma de tentar fazer com que um pouco daquelas luzes nos ajude a enfrentar a pedreira que temos pela frente.
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