Milton Cunha: Trapaça

Pode praticar bullying chamando a discordante chata de biba? O que vocês acham?

Por O Dia

Rio - No final da noite, quando tudo parecia terminado, ao responder minha saudação de boa noite, uma das meninas/moças disse com desprezo, superioridade, e uma ponta de raiva: boa noite, biba (bicha, na linguagem dos descolados).

Percebi que em minha consciência não passava qualquer qualificativo para saudar as cinco adolescentes, ou a adulta que as acompanhava, e deu péssimo exemplo minutos antes. Elas estavam apenas do outro lado da vida, naquele momento, mas eu não tinha raiva delas.

Alhos terão a ver com bugalhos? Posso a partir dai pensar a vida? Deste microcosmo, verei um mundo maior, tipo “eh de pequenino que se torce o pepino?”. Decida depois de ler. E, inclusive, "talvez" poderá ser sua resposta. E qualquer que ela for, não odeie quem discordar. Converse.

Voltando no tempo: separamos as duas equipes, aprendemos a regra do jogo, e começamos a brincadeira. Um simples jogo de mímica, com jovens e adultos. Tire uma carta, e vire-se para se fazer entender, pois a carta pode ser dificílima. Foi aí que a adulta adversária sorrateiramente devolveu a escolhida carta ao monte.

Eu vi, acho que outros viram, mas fiquei tão indignado com a trapaça, que daquele momento até terminar eu só repetia, insuportavelmente, "ladras", no plural (pois ao tentar recompensar meu grupo ao avançar as casas e empatar o jogo, a líder das adolescentes defendia o roubo e me acusava de também ser ladrão).

Uma bobagem, tempestade em copo d'agua. Mas não começa em casa? Toda culpa é da Dilma? Pode trapacear? Pode caluniar a coleguinha, só pra ter o menino de volta? Pode ser sentir superior ao coleguinha gay? Ou é preciso assumir as dificuldades das cartas que a gente puxa no dia a dia? Não dá para voltar no tempo, fingindo que ninguém viu. E quem vê tem que gritar que viu. Fazer a louca e deixar passar é ser cúmplice.

Tudo isso só foi um tolo acontecimento, que em mim despertou toda uma visão do mundo. Não, não se deve trapacear nem no banco imobiliário, de crianças ou de adultos (vamos combinar que a Lava Jato é como um grande dos adultos brasileiros?).

E nada disso justifica o ódio: estamos em lados opostos da argumentação, sou um dos lados, e poderemos ser amigos. Ancelmo publicou uma deliciosa frase do prefeito Paes, que abre o ano implacável: que 2016 seja um ano em que o diferente não seja inimigo.

Pensando sobre nossos bobos atos, encostei a cabeça no travesseiro e dormi com a tormenta do futuro de jovens e adultos, que acham brincadeirinha roubar de brincadeirinha.

Pode praticar bullying chamando a discordante chata de biba? O que vocês acham?

E-mail: chapa@odia.com.br

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