Luiz Antônio Simas: Macumba, Carnaval e samba

O problema é que meu Brasil sentimental está indo para o beleléu. Até o Carnaval anda em perigo

Por O Dia

Rio - Ao me lembrar das festas de Ano Novo da infância, confesso que a sidra de macieira Cereser e a aguardente Praianinha, com um anúncio de televisão embalado por um ponto de macumba (Vamos homenagear / Iemanjá, a Rainha do Mar...), me marcaram naquela fase, entre 4 e 10 anos de idade, em que tudo se define na vida de uma pessoa, sobretudo os fundamentos da personalidade. O dia em que, na Praia de Magé, meu avô permitiu que eu tomasse um golinho de sidra para brindar, enquanto Dona Olga recebia Iemanjá, os erês tocavam a quizumba na areia e o Manoelzinho Motta dava um migué para beber a birita dos despachos alheios, teve uma importância incomensurável na minha formação. Eu via o Carnaval como uma extensão do Réveillon e o Réveillon como o início do Carnaval.

Arrisco uma psicanálise de terceira categoria: acho que naturalizamos aquilo que conhecemos cotidianamente quando crianças. Eu cresci em uma família nordestina que gostava de macumba, Carnaval e futebol e fazia disso referências sentimentais poderosas. Sabem aquele Brasil que, para certos sabichões com nostalgia das europas, não presta; o do samba, do tambor e da festa? Muito prazer, sou filho dele, neto de mãe de santo e sobrinho de um ex-presidente de bloco de enredo. Eu teria, neste caso, duas hipóteses: execrar essas coisas (ou ao menos algumas delas); ou vivenciá-las como componentes amorosos da minha vida. Prevaleceu a segunda.

O problema é que meu Brasil sentimental está indo para o beleléu. Setores do bonde da aleluia acham que umbanda e candomblé são do diabo e incendeiam terreiros com o olhar complacente das autoridades. Macumba só é boa quando serve para descolados fazerem moda e alternativos falarem de orixá como se fosse signo do zodíaco e terapia de autoconhecimento. Os cartolas do futebol, em conluio com os empresários da bola e a bandidagem das empreiteiras, resolveram que estádio é arena multiúso e torcedor é cliente com poder aquisitivo. O Carnaval anda em perigo: as escolas de samba sucumbem à lógica dos grandes eventos e desfilam para um Sambódromo cheio de gringos com sono. O Carnaval de rua passa por um processo de uniformização — a antítese da folia e parte de uma tendência mais ampla de higienização social da festa — que quer incluir até a cerveja que o folião terá que tomar.

Mas não desanimo. Temos tarefas pela frente: inventar e reconstruir novos terreiros, campos e avenidas. Quem nasceu e aprendeu na fresta, afinal, sempre encontrará as brechas para bater tambor, gritar o gol e cantar um samba.

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

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