Por bferreira

Rio - A televisão ainda era a válvula incandescente, tubos cinescópios rompendo o móvel, aqueles que acendiam a partir de uma pequena luz no fundo da tela até crescer, em preto e branco com uma programação repleta de novidades pra época. A Retrospectiva nasce desse tempo e permanece. Da mesma grade perdeu-se a Zebrinha da loteria. O agudo da locução na hora de um placar improvável causava "frisson” no sofá da sala. Muitas vezes o sujeito já levantava rico e dando adeus ao sogro, para sempre. A questão, além-tecnológica, reside na qualidade do nosso futebol. Não há mais surpresas, impossível encontrar treze partidas de real interesse. Ou apelamos pra Liga dos Campeões.
Sigo, saudosista.

A Tupi dava boa noite exibindo um índio com cara de piraquê flechando a tua insônia até o romper de uma aurora boreal em forma de caledoscópio, diferentes tons de cinza e branco. O hino nacional seguido do apito do navio do Capitão Furacão, te acordavam prum novo dia.

Acontece que eu me preparei pra escrever sobre Retrospectiva, mas de uma leitura às avessas. 

Evito clicar no Google. A memória busca uma cartomante, um religioso, ou vidente mexendo em pedras lapidadas. Um fundo musical digno de último capítulo de novela e, depois de lembrar dos que se foram, atores, cantores, polítcos e pontes desabadas, anunciavam as previsões. A partir desse instante nuvens negras eram distribuidas em nossas cabeças. Toda a audiência condenada. Personalidades mais cascudas se identificando com a intepretação das evidências: - Vai morrer um político corrupto!

As tragédias se multiplicavam. Aviões desaparecidos no Triângulo das Bermudas, prédios incendiados, até a miséria humana não mais surpreender.

Dos últimos meses, as mortes de Marília Pera e Selma Reis. As lástimas do Rio Doce, dos hospitais, da microcefalia, revirando as previsões. Que zika!

Eu vivo no samba, no samba me criei. Foi um ano importante pra minha batucada. Na calçada de todo o dia, uma ansiedade com crises e pivetes, arrastões e arrastados pela globalização. A nossa Iemanja do novo ano, se arrepia nas águas da Baia da Guanabara. O barquinho encalha, a tardinha cai.

No mundo nada é diferente. Paris não está em festa. Por aqui, na Maré, também.

Nasceu a filha do Bruno, o neto do Dácio e Luciana. Amantes amaram amor urgente e sobrevivemos todos, pra acreditar num futuro melhor. Principalmente, a generosidade, a tolerância.

Abençoados todos nós, feliz 2016!

E-mail: moaluz@ig.com.br

Você pode gostar