Por adriano.araujo

Rio - Confesso que jamais vi tamanha crise de descrença no Brasil como a que nos assola. Em minhas sete décadas de existência, e lá vai fumaça, nunca vivi a sensação de que um tsunami estaria por desabar sobre o Brasil. Quero exclamar, já asfixiado pela persistência das parolagens das previsões, que basta! Basta de tiros do pelotão de fuzilamento contra o país. E vou de pronto avisando que não sou um otimista em frêmitos de gozos, como os sambas-exaltação do meu brasil-brasileiro dos anos 40.

Não, nada disso. E quem me conhece sabe de minhas ásperas indignações. Tom Jobim cunhou frase amarga, “a melhor saída para o Brasil é mesmo o aeroporto”. Por outro lado, Nelson Rodrigues disparou que “temos complexo de cachorro ou que o Brasil não é popular no Brasil.” Nem tanto, nem tão pouco. Até porque cientistas sociais do porte de Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco, Sergio Buarque de Hollanda ou Gilberto Freyre forneceram uma identidade ao país a partir da miscigenação e da apetência para a paz, tanto interna quanto externa. Aliás, o sociólogo italiano boa gente Domenico de Masi nos fez um afago ao refletir sobre a crise. Disse que o Brasil é o país do futuro, e o futuro chegou (este exatamente o nome do seu novo livro, mais um mimo pró-Brasil). Ele ainda agrega uma controvérsia (com ressabiado fundo de verdade) ao proclamar que os pessimistas no Brasil, assim como em qualquer país do mundo, são os intelectuais. Uma paráfrase, agora me dou conta, do quase sociólogo Joãosinho Trinta, quando bradou do alto do Sambódromo “quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta mesmo de luxo”.

A crise não pode arrastar os fundamentos de um país rico e fraterno. Infelizmente, também, de um país cujas elites deixam a desejar, em especial seu corpus político. As escaramuças da crise de desânimo se agudizaram desde 2013, como reação neoliberal, sustentada pelos erros repetidos pelo governo e pela corrupção violenta de setores da esquerda. Isso deixou parte do país se sentindo pobre, lesado, sem futuro.

Mesmo descontentes ou mal-humorados, não há por que aticemos o fogo do incêndio. O que pode cremar fundamentos de essência, como democracia, autoestima, esperança. Melhor o sorriso sutil da Mona Lisa do italiano Da Vinci, que ‘O Grito’, tela apavorante do norueguês Munch.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

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