Por bferreira
Rio - ‘Bicha mormaço é aquela que parece que não queima (a rosca!), mas queima sim!”. Adoro os ensaios técnicos das escolas de samba, onde ouvi esta sabedoria popular: é programa das famílias sambistas, maioria suburbana, divinos! Eles vão chegando com o sol quente, sentando no concreto forrado com algum papelão que eles levam, e assim vai se formando a grande Corte do Samba.
A pista é o Castelo, o privilégio para onde todos os olhares convergem. O puleiro é a praça pública onde os pobres, vendedores, palhaços e meretrizes transitam (estes dois últimos também estão na avenida, lá em baixo, só que embalados com outro invólucro, mas é tudo, no final, a mesma coisa).
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Aí toca a sirene, e os espetáculos montados pelas agremiações vão passando. Levas de anônimos, cantando o samba e se divertindo (pelo menos deveriam, mas às vezes passam a impressão de que não estão fazendo aquilo com empolgação). De vez em quando, entre eles, passa sozinha uma estrela conhecida de todos. Claro que aí todos os flashes explodem, mas se não existirem os outros milhares de anônimos, isto não teria o menor sentido. A famosa precisa daquilo, e parece que aquilo precisa da famosa. Muitos teóricos questionam, mas enquanto não houver um levante popular contra isso, acredito que o povão é soberano para tomar suas próprias decisões.
Não sou da turma que acha que estão enfiando goela abaixo das comunidades as ditas celebridades. Como pagavam para ver as vedetes do teatro de rebolado, agora aplaudem este moderno teatro de revista sambística, recheado de coristas/passistas que querem um dia a capa da revista.
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A cobertura da televisão reflete isto: muita filmagem dos anônimos sorrindo, com samba no pé, e a citação dos conhecidos. E sempre o reconhecimento das estrelas internas, os famosos de dentro do universo do samba, como Tio Nilda, presidente das baianas da Mocidade. Sim, para além das moças bonitas e famosas, nós temos nosso conjunto de Deuses, reis e autoridades internas, que o povão supõe, mas não consegue apontar e identificar. Cabe a cada comunidade indicar suas autoridades para que a audiência os aplauda.
Ah, sim, tem também os jornalistas, críticos, entendidos, comentaristas, internautas apaixonados que fazem de suas opiniões uma profissão de fé, capaz de eleger até mesmo a escola campeã dos ensaios técnicos, para deboche dos mais conscientes trabalhadores da mídia, porque aí já seria um pouco demais.
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É aqui, longe do senso comum e da opinião pública, que a pequena tribo do Samba reverbera fofocas, intrigas e acusações. Não vivemos sem isso, faz parte de nosso folclore o despeito, a maldade, o golpe baixo. Tudo igual ao resto do mundo. É assim entre todos os grupos humanos, não seria diferente na Corte Sapucaiana.