Moacyr Luz: Foi nos selfies da vida

Ouvi que uma pesquisa comprova que o controle remoto faz o homem engordar alguns quilos por ano

Por O Dia

Rio - Desde que o homem foi à lua a modernidade invadiu as nossas cabeças feito obsessão, um vício à venda nas prateleiras do Ponto Frio. Antes, as novidades eram rolos de papel higiênico, capa de bujão, de liquidificador, besteirinhas tal qual um cinzeiro com tampa pra abafar a catinga, até o máximo da audácia criativa, um Atari. Posso incluir o walkman e o controle remoto, dois eletrônicos transformadores.

Ouvi na Rádio Relógio que uma pesquisa comprova que o controle remoto faz o homem engordar alguns quilos por ano. O sujeito se livra do horizontal e vertical, do volume descompassado das dublagens e ainda troca cinco canais por minuto, imóvel, sem sair da cama. Claro que a mandíbula não para de mastigar tubos de batata frita e pizza gelada, mas o conforto trouxe inércia ao ser humano. Também se estuda a influência do vidro elétrico de automóveis na obesidade mundial depois que perdeu-se o percurso da manivela entre as funções dos membros superiores.

Esse assunto faz uma reta com mil desdobramentos se levarmos em conta o descascador de legumes e o Liquid Paper (cá pra nós, nem a Petrobras tem ações tão baixas quanto a fábrica do Liquid Paper).

Mas o que mais me impressiona, de ficar vesgo e descabelado, é o tal do selfie com celulares. Já não basta a tua comida esfriar enquanto não se encontra o ângulo ideal de fotografar o bife pro Instagram, você ainda leva um pescoção do vizinho de mesa pra sair no autorretrato. Não satisfeitos, mais uma novidade como um aparelho de ginástica, criaram o pau de selfie, uma jabiraca que fixa o bendito aparelho na distância de um fotógrafo gentil, hoje desativado entre as cotias do Campo de Santana, dois passados, e sai flagrando seus falsos humores.

Recentemente, no Samba do Trabalhador, uma gentil senhora pediu uma foto com a neta de 8 anos. Tímido, me aprumei no quadro enquanto a dona ligando a geringonça, fez um gesto de Glauber Rocha e gritou: “Ação!” Só faltou me passar o diálogo, o roteiro. Eu estava na cena de um aniversário, dando depoimento e parabéns! Resignado, procuro nas redes sociais os mil closes que participei na semana. O semblante diz tudo. bebi. Esse tal de celular é o verdadeiro olho de George Orwell que a tudo vê.

Domingo fui comer um galeto no Sats, Copacabana, o melhor braseiro da cidade nesse quesito. A ideia era ficar quieto atrás dos espetos de coração e linguiça, bem ao lado da farofa de ovos. Alguém pede uma foto. Aceito de boca cheia. Cinco minutos depois, um camarada me manda um whatsapp elogiando a picanha suína da casa. Eu fui parar no Facebook! Como diria o mestre Nei Lopes na parceria com Maria do Zeca: “Do jeito que a coisa vai, boteco do Arlindo vira drogaria!”

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