Carlos Alberto Rabaça: Reforma curricular

As críticas ao conteúdo dos novos currículos para escolas brasileiras, a chamada Base Nacional Comum Curricular, iniciativa do MEC, vão muito além do ensino de uma matéria

Por O Dia

Rio - As críticas ao conteúdo dos novos currículos para escolas brasileiras, a chamada Base Nacional Comum Curricular, iniciativa do MEC, vão muito além do ensino de uma matéria específica. Há inúmeras desaprovações ao texto-base nas disciplinas da Língua Portuguesa, da Matemática, da História, além da inadequação de conteúdos para a faixa etária proposta. Tomo como exemplo a maneira de abordar as “formas de organização familiar e sexualidade” para o 1º ano do Ensino Fundamental.

Observando as relações que nossos pais estabelecem entre si e conosco, adquirimos parâmetros de felicidade, ou da falta dela, que nos acompanharão a vida inteira. Historicamente, o modelo que adotamos como familiar, composto apenas por pai, mãe e filhos, vem minguando. A família designava um grande grupo de relações parentais e incluía agregados. A educação afetiva proporcionada pela família era quase comunitária. No século 20, o crescente individualismo reduziu esse grande grupo à célula básica: pai, mãe e filhos. Os livros escolares acompanharam essa duvidosa evolução sem questioná-la e hoje apresentam o núcleo familiar na forma compacta.

Encontramos, no século 21, modelo de núcleo reduzido. É cada vez maior o número de casais separados, sendo comum encontrar crianças criadas sem o pai, a mãe, ou mesmo sem os dois. Tios, avós, irmãos mais velhos e professores desempenham esses papéis. Os livros, entretanto, continuam transmitindo o antigo modelo e provocam enorme desconforto nas crianças cujo modelo doméstico não corresponde ao do livro. Ao ensinar a uma criança que o grupo que a educa, ampara e protege não é uma família como a retratada nos livros, favorecemos o sentimento de exclusão social. É importante que a criança sinta que o grupo parental (ou mesmo não parental, no caso dos orfanatos ou pais adotivos) ao qual pertence é legítimo e capaz de oferecer a base afetiva e moral que a tornará um cidadão. Quando pretendemos trabalhar a criança com valores morais, não é no nível do intelecto que o professor deve atuar, mas no do sentimento.

Só assim formaremos cidadãos equilibrados. Temos de estar atentos à adequação de conteúdos, sabendo-se que uma criança de 6 anos, por exemplo, não pode entender a vida sexual sem estar segura de si.

Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor

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