Eduardo Alves: Ainda sobre sinônimos aparentes: mobilidade

Os transportes ocupam lugar central em uma cidade com direitos, equipamentos, conquistas e condições de qualidade de vida em todos os territórios

Por O Dia

Rio - Uma cidade que aposta na mobilidade precisa ser planejada para isso. E o planejamento tratado aqui não é algo que muitas vezes é compreendido como frio, calculado, que lembra muito aquilo que foi divulgado sobre a organização de Brasília em 1960 para receber a capital nacional do Rio. Trata-se de planejar a cidade para as pessoas, ou seja, para o encontro entre as pessoas e destas com os vários aspectos da vida. Além disso, estimular o desafio cultural para o desejo na população pelo conhecimento dos territórios.

Hoje, encontramos em um único percurso desejos e necessidades diferentes. Em uma cidade como o Rio, por exemplo, as pessoas de Sepetiba, Santa Cruz, Campo Grande e Bangu demandam mais transporte para o Centro e Zona Sul do Rio que o inverso, ainda que o percurso seja idêntico. Neste sentido, a mobilidade precisa ir muito além do transporte dos corpos. Precisa ocupar uma relação territorial, com diferenças que possam se articular na cidade e fazer com que a mesma se amplie em sínteses de convivência e direitos.

Mas atenção: os transportes são um dos ingredientes que precisam ser assegurados. Tanto os públicos de qualidade (sejam os de massas ou não), quanto as condições das vias e estradas para os transportes privados (ou quaisquer outros). Os transportes ocupam lugar central em uma cidade com direitos, equipamentos, conquistas e condições de qualidade de vida em todos os territórios. A mobilidade demanda a livre circulação dos corpos, mas também os encontros dos símbolos, dos desejos, dos direitos, da vida e das diferenças.

No século 21, a mobilidade inclui o direito à internet, às redes e às bandas largas e precisa garantir o encontro das culturas, das ideias, das estéticas, das várias faunas construídas nos diversos territórios para se fazer plena. É estratégico estimular o desejo pela convivência, pelas diferenças, como formas de educação, cultura e aprendizado, rompendo com as ambições das planificações da vida e com as imposições de ‘padrões’. Práticas que devem ser deixadas no passado, afinal, “o passado é um país estrangeiro” (L. P. Hartley). Uma cidade de direitos, contemporânea, conquistará mobilidade plena, assumindo o protagonismo dos cidadãos nos diferentes territórios.

Eduardo Alves é sciólogo e diretor do Observatório de Favelas

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