Por felipe.martins

Rio - Cidade de botequins lotados e enormes barrigas presas a um cinto com furos improvisados, o Rio ferve em datas religiosas, uma vela no altar, outra na encruzilhada.Esta semana foi dia de São Sebastião, Oxossi caçador, morto duas vezes, e também padroeiro de mais cem sítios brasileiros, Xapuri, Brumadinho, todos flechados de esperança e sofrimento, esperando dias melhores. Aqui, nos trópicos da liberdade, a chuva serviu de reco-reco nos sambas do feriado. O Arteiros da Glória abarrotou de foliões as biroscas e tabernas no entorno da Cândido Mendes, rua descrita pelo meu mestre Paulão Sete Cordas, como a Turquia do bairro: “Tem de tudo. Moa! Até bêbado!” Ainda cruzei por uma batucada forte no Catete. Garoa de São Paulo, chuvisco de São Sebastião.

A entidade maior, o Cacique de Ramos, é outro afilhado do santo. Fundado no mesmo 20 de janeiro sob a batuta do querido Bira Presidente, aproveitou a quarta-feira pra anunciar, no meio do partido alto, a volta do samba na tamarineira. Não resisto! Ainda choro namorando a comenda que essa agremiação me ofereceu pelo tempo de reza e peregrinação no caminho da música. Aprendi com eles. Acontece que o Rio é de todos os santos. Não dura um terço rezado, chega abril de São Jorge com seu cavalo avançando sobre o dragão da destemperança. Nas igrejas que eu frequento, Quintino e Campo de Santana, o pagode corre solto.

Otário e malandro no mesmo andamento, vermelhos sobre o coração protegido, o sapato branco para que outros pés não os alcancem. Maio é mês de Anastácia, do preto-velho, treze de Nossa Senhora de Fátima. Os padres cantam, os negros evocam os tambores. No Renascença, clube do coração, a imagem da escrava amordaçada está pintada sob a sombra da mangueira que protege o samba de outros feitores.
Segue no ritmo de tamborins e agogôs, o arraial de São Pedro e São João. Santo Antônio casando as passistas na fogueira de sonhos, e quentões inflamados.

O surfista se veste de caipira. O doutor colore os dentes, banguelas bocas suburbanas, caniço e pescaria na prenda mergulhada do cercadinho. Anarriê! Não posso esquecer setembro de São Cosme e São Damião, os santos da minha infância. Doces lambendo a cárie, descalço nas ruas da Zona Norte, dopado de suspiro e paçoca de amendoim, salvo pelos irmãos das lumbrigas do dia seguinte. Festa popular, os ibejis estão no enredo da Renascer de Jacarepaguá trazendo a primavera pra Sapucaí. Não resisto, novamente!

O samba que conduzirá a escola na Avenida foi do trio Teresa Cristina, Claudio Russo e Moacyr Luz. A crônica aperta. Ainda é preciso se ajoelhar por Nossa Senhora Aparecida, o manto azul de Madureira. Fiéis em procissão pulando as valas do abandono pra sambar na Portela, Monarco, de branco, no anil de homenagem.

Último parágrafo, Zumbi dos Palmares, data da consciência negra, a festa da libertação. Momento de reflexão, o samba pede licença, recua a bateria e o povo começa a cantar:“Valeu, Zumbi!” O grito forte do meu Rio de todos os santos.


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