Milton Cunha: Vem aí o arrepio!

Como Salgueiro e Mangueira têm sambas lindos, teremos um embate de alta voltagem espiritual

Por O Dia

Rio - É intrigante pensar que as duas entidades, Zé Pilintra e Oiá, tiraram a primeira e a última bola do sorteio, entre 11 opções da ordem de desfile da Liesa, organizadora. São 12 escolas de samba, mas uma, a que sobe do Grupo de Acesso, já tem lugar definido (primeira de domingo) e não participa do sorteio. Restaram então 11 bolas. Pois o Malandro lá do Morro do Salgueiro preferiu entrar na Avenida muito cedo, e logo depois do São Jorge, da Estácio de Sá. Uma abertura mística, carregada de simbologia para os sambistas. Todos respeitamos o Ogum (no sincretismo, o Santo Guerreiro) e o Exu, este, abridor de todos os caminhos e o primeiro a receber o canto e a dança no Xirê dos Orixás. Nada mais óbvio, portanto, que esta energia conspire para ser o primeiro, se possível. Já a malandra, a Pombagira, virá rodopiando na comissão de frente. Muita energia envolvida. Aliás, quer coisa mais pombagira que Ivete Sangalo gritando do palco “quem é essa aí, papai?”. Coisas de não levar desaforo pra casa, tipo bateu-levou.

E aí vem toda a energia do Gantois, na Bahia, que levou 40 dias para autorizar ou não que Mangueira fizesse Maria Bethania a menina dos olhos de Oiá! Senhora das tempestades, do trovão, arquétipo da mulher decidida, guerreira, ela escolheu ser a última, e mandou a diva-cantora vir no ultimo carro alegórico, portanto última da última; nada atravessará a pista, no Grupo especial, depois dela. Um quer abrir, a outra, fechar, e parece que ele só vem em segundo porque quis a regra do jogo que ele não pudesse ser primeiro. Será o segundo por lei, mas o primeiro por sorteio, portanto o primeiro na sorte.

Será um desfile das mulheres arretadas, começando com o preferido delas, o escorregadio senhor. O Salgueiro, Renato e Marcia Lage mais a comissão de Carnaval, vão colocar várias facetas do cara: o conquistador das mulheres do bordel, romântico e imprevisível, o jogador dos cassinos e mesas de apostas, o bebum que afogou o ébrio na bebida, o sábio malandro capaz de criar frases que cairão para sempre no gosto (e aí jamais esqueceremos Bezerra e Moreira da Silva e Dicró, divinos frasistas). A Mangueira, com o carnavalesco estreante Leandro Vieira, muito talentoso, abre com enormes búfalos dourados carregando mulheres belas, negras e nuas. Ela, Yansã/Oiá foi a mulher que enganou a morte e escondeu-se na pele deste animal.

Como todas as duas têm sambas maravilhosos, e comunidades que de tão apaixonadas são de cortar os pulsos quando resolvem rasgar a avenida dos desfiles, teremos um embate particular de alta voltagem espiritual. Preparem-se para arrepiar!.

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