Moacyr Luz: Mas é Carnaval

Amanhã é um sábado que poderia ser de Aleluia, agremiações no asfalto. Estou empolgado. É o povo em crise de riso

Por O Dia

Rio - Amanhã, quando o Põe na Quentinha? botar o bloco na rua, um pouco do cotidiano dos botequins cariocas será homenageado na “passarela” encostada na Praça Mauá. A tradição imperial dos portugueses atrás desses encardidos balcões resistindo às modernidades, o petisco feito na clandestinidade das leis públicas, o arroto do boêmio na terceira genebra da manhã.

Os bons tempos da sardinha frita na farinha descolando a pele num guardanapo de terceira, a gordura nos beiços, a serragem no chão, molhada de cuspe e reza, a primeira é do santo, o barulho do tamanco mostrando a conta pendurada. Rabiscos do nosso retrato-falado, tremoços feito contas de um terço rodando os dedos, o caroço da azeitona, bailarino na língua queimada de tanto mel e conhaque.

O samba do bloco versa referências: “É uma birosca portuguesa com certeza, com certeza é uma birosca portuguesa...” Carlinhos é o dono da “embaixada” lusitana fincada na Rua 16, do Cadeg, a origem de bela festa, o Cantinho das Concertinas. o Magusto sem fogueira tem acordeom e viola pra esquentar os bigodes conterrâneos. Pescados de Setúbal ou Matozinhos, brasa incandescente, rabo de bacalhau e batata no azeite.

Não tem recuo de bateria. O bloco é de comida, samba no prato, bebida de todo grau na alegoria de mão, olha o breque que vem mais tempero. Dona Donzilia é a portuguesa do famoso bar de Olaria, vizinha de Pixinguinha, a feminina "Carinhosa", clássicos pastéis no mapa da Leopoldina, sorrindo pelas mesas feito brisa da Zona Sul.

Em Benfica, onde o calor inibe a luz de todos os lustres vendidos nas lojas de um quarteirão, o Adônis é uma miragem na escaldante temperatura. O chope, entre os melhores da cidade, ameniza a desidratação, mas o grande unguento das tardes suadas guarda raiz no humor do saudoso Arnaldo, sorriso de Rio D'Ouro no cálice de um vinho.

Põe na Quentinha? e suas alas. Surge na comissão de frente a elegância do chef Perico, o mestre-sala do Antiquarius. Inusitada presença nesse cardápio de torresmos e moelas, um fino licor no traçado com Cinzano, Creme de Ovos ou Fogo Paulista. Um talho sobre o céu que cobre nosso fígado desesperado. “Perico achou que era de Stradivarius, é que no Antiquários muda afinação...”

Amanhã é um sábado que poderia ser de Aleluia, agremiações no asfalto, Simpatia é Quase Amor e Pinto Sarado desfilam na cidade olímpica seus enredos cariocas, irônicas críticas, alegria dos trópicos, sedução do Carnaval. Estou empolgado. É o povo em crise de riso, soluços de euforia num porre de felicidade.

E-mail: moaluz@ig.com.br


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