Jaguar: Bahia com agá

De novo na Bahia, em Itapuã, onde estive com Millôr Fernandes há 40 anos, na casa de Vinicius de Moraes. O local era um vasto areal onde a casa se destacava solitária

Por O Dia

Rio - De novo na Bahia, em Itapuã, onde estive com Millôr Fernandes há 40 anos, na casa de Vinicius de Moraes. Talvez tenha sido algum festival. Havia muitos na época: de humor, de cinema, de música. Millôr e eu devíamos ter sido convidados para um júri ou coisa assim. Ficou a recordação de que fomos expulsos pela mulher do Poetinha, a bela e feroz Gesse. Estávamos bebendo numa enorme mesa de madeira de lei na sala de jantar quando ela chegou. Admito que tinha razão: os copos cheios de gelo deixaram marcas no verniz do tampo. “Você e seus amigos bêbados estragaram a minha mesa!” Peguei os copos, Millôr, o balde de gelo, e Vinicius, o que ele chamava de melhor amigo do homem: uísque, o cachorro engarrafado. Fomos beber o resto num banco na praia em frente. Itapuã era um vasto areal onde a casa se destacava solitária.

Ela ainda existe. Foi incorporada a um hotel cujos donos, inteligentemente, mantiveram a estrutura. O quarto do casal — a ‘Suíte Vinicius’, de cara para o mar — é a mais cara e disputada. A varanda foi ampliada e anexada à sala de jantar e é agora a ‘Casa Di Vina’ (taí, um bom trocadilho), onde se come melhor e mais em conta que no Leblon, e não só acarajés e vatapás. Por ironia do destino, também desta vez não bebi uísque. Parei de beber em 2012. Millôr também. E Vinicius, em 1980. Só a visita à casa onde morou o poeta valeu o desconforto de pegar um avião no aeroporto, um dos piores do mundo (não merece o nome do seu parceiro, Tom Jobim).

A tal mesa sumiu, não está mais onde funciona o restaurante, mas, subindo uma escadinha, vemos uma sala de estar com coisas dele, inclusive um objeto arqueológico: sua máquina de escrever, uma Remington portátil, se não me falha a memória. Imaginei na hora um cartum: um garoto pergunta o que é aquilo para o pai: “Deve ser uma máquina para escrever poesia.” Vinicius sonhou a casa como um poema, que vem num folheto quando pedimos a conta no restaurante. A casa e o poema são para a Amada (sempre com A maiúsculo): “Aí está, Amiga, a casa/ Pronta, a porta aberta, a mesa/ Posta:uma casa feita/ De canções cantadas por todo o Brasil/ Com abatimento para estudantes. Aí está ela/ Amada, projetada sobre o oceano, e cuja quietude/ É perturbada apenas pelo marulho constante/ Das ondas.”

Quando estive lá pela primeira vez, Itapuã era uma praia deserta. Hoje, cheia de condomínios, lembra a Barra da Tijuca. Citando de novo Tom, não há mais “praias desertas esperando por nós dois” nem por ninguém.

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