Por felipe.martins, felipe.martins
Rio - É Carnaval. Aliás, desde o fim de semana passado, quer a gente goste ou não. Já foi o tempo em que o Carnaval durava quatro dias. O evento foi ‘evoluindo’ e agora a cada ano o Carnaval começa mais cedo, dura mais tempo, é mais frenético, reúne mais gente e incomoda mais. Será que é mais alegre que de anos passados? A opinião é individual, e a animação depende de muitos fatores e é sempre intransferível.
Só sabemos todos que, este ano, o Carnaval vai ocupar praticamente duas semanas. Duas semanas em que ninguém agenda coisa alguma, o trabalho e a prestação de serviço ficarão todos a meia-bomba e, em vez de consultar só o Waze para se mexer, é preciso consultar a agenda de blocos da prefeitura. E aqui vai um elogio: a prefeitura trabalhou bem, e a agenda está bem atualizada e detalhada. O problema é que as pessoas não deixam seus blocos na hora que a orquestra ou o trio para de tocar. Elas continuam ali, atravessando à frente dos carros, circulando de copo na mão, tontas, num clima esquisito de fim de festa.
Publicidade
O problema é o exagero. E não estou falando só em nome de quem não gosta de samba ou tem alergia a Carnaval. Falo também em nome de quem, como eu, gosta da folia mas precisa ou quer fazer outra coisa que não seja apenas sair atrás dos blocos. Desde sempre é difícil circular nesta época. A gente saía de casa animada, e na volta batia um desespero inesquecível ou um engarrafamento interminável. Foi assim comigo há uns anos quando um amigo decidiu fazer uma feijoada de Carnaval para comemorar o aniversário, em plena Copacabana. Fui cedo, tipo 14h. Éramos um grupo animado com boa bebida, boa comida e boa música. Nem nos demos conta do mundo lá fora. Quando saímos, o caos estava instalado.
O trânsito tinha dado um nó cego, ninguém se mexia. Foi uma luta sem precedentes por um táxi. Havia gente de mala na mão correndo de um lado pro outro tentando achar um taxista disposto a ir ao aeroporto; vans passavam lotadas, com bêbados espremendo trabalhadores exaustos que também tentavam voltar pra casa ou ir para o trabalho; ônibus tentavam cumprir seus trajetos sem sucesso, e a gente ali, uns três ou quatro amigos fiéis tentando me ajuda a voltar pra casa. Durou uma eternidade e prometi a mim mesma que não sairia mais durante o Carnaval. Mas foi só uma promessa de Carnaval. A cada ano, me lembro do episódio, mas, a cada ano, a tentação volta a me dominar. Mesmo usando todos os aplicativos, mesmo atenta aos sinais de bateria e de aglomeração, vou acabar encalacrada. Mas fazer o quê, né? É Carnaval.
Publicidade
E todo ano penso a mesma coisa: feliz de quem pode sumir, se isolar num sítio sem sinal de internet nem de aglomerações. Feliz de quem juntou os livros que quer ler, os filmes que quer ver, os amigos mais preciosos e encontrou seu lugar de paz. Mas onde será este lugar, cujo acesso não precise de carro, nem de avião, nem de credencial? Onde estará esta paz sonhada? Sem engarrafamento ou batuque? Juro que ano que vem vou procurar. Por enquanto, só me resta desejar a todos e a todas bom Carnaval.