Por felipe.martins

Rio - Em um texto-ícone da dramaturgia, ‘Terror e miséria no 3º Reich’, Bertolt Brecht (1898-1956) põe no palco um casal atormentado pelo medo que apavorava a humanidade — especialmente os judeus, os comunistas e os homossexuais — durante o império da prepotência e da covardia que tentou dominar o mundo, a partir da Alemanha, antes e durante a Segunda Guerra.

O filho saíra sem avisar, e os dois têm um diálogo mais ou menos assim:

— Será que ele foi procurar a Gestapo?
— Nosso menino não faria isto.
— Não tenha tanta certeza disso. O filho do nosso vizinho não denunciou os próprios pais?

Tocam a campainha, e o pai diz, aflito:

— São eles. Vamos por o retrato de Hitler em cima da escrivaninha?!

A mãe abre a porta, tremendo de medo. É o menino deles que chega. Trocam algumas palavras, e ela se dirige ao marido, aliviada:

— Ele disse que foi apenas comprar chocolates.

E o pai, com os olhos arregalados:

— Será verdade?

Lembro-me desse diálogo quando leio que o mercado editorial (inclusive no Brasil) corre para relançar ‘Minha luta’ (‘Mein Kampf’), do pai do regime de extermínio deliberado. Alegam que as teorias de Hitler, agora em domínio público, têm valor histórico para estudiosos e pesquisadores, especialmente para que se possa entender como o império do mal pode contagiar a tantos.

Quem já leu o libelo nazista garante que não acrescenta nada a biblioteca nenhuma, que não passa de um amontoado de teorias raivosas e delirantes, como a da “raça pura”, literatura desprezível, que poderia muito bem continuar no sótão escuro da História.

Concordo com o professor da FGV Fernando Leal quando escreve que “quem decide o que merece ser lido é o leitor”. Mas concordo também com Verissimo, sugerindo que o livrão (pelo menos em quantidade de páginas) deveria vir acompanhado de DVD com as cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos descobertos nos campos de concentração, tortura e morte comandados por Hitler e seus seguidores.
Talvez, aí sim, ajudasse o leitor a decidir se a edição da tal “obra” se justifica.

E-mail: [email protected]

Você pode gostar