Ruy Chaves: Cartas de Curitiba: a culpa é ... da mamãe!

Confidências de um preso na Lava Jato

Por O Dia

Oi, Mamãe, tudo bem? Há tempos não te procuro, não telefono sequer em dias especiais como Natal, Dia das Mães, teus aniversários; deixei de mandar fotos de teus netos. Meus últimos anos foram muito dinâmicos, todo o tempo ocupado ganhando e gastando dinheiro, muito dinheiro, cada vez mais, mas as tentações do poder e atalhos perigosos acabaram me levando... à prisão!

Nem sei como te dizer, a Lava Jato me pegou, estou completando meu primeiro aniversário preso em Curitiba. Mãe, sabes que sou inocente. Sempre fui um menino bonzinho e obediente, e tudo o que ouvias de mim eram acusações sem provas, perseguições políticas. A professora mentia ao dizer que eu não fazia deveres de casa e que colava nas provas; as garotas do colégio mentiam também: eu não comia suas merendas nem escondia baratas em suas mochilas nem quebrava a ponta de seus lápis de cor.

Mãe, juro por tudo que é sagrado, nunca roubei jogando sueca com meus amigos, não escondia cartas nem tapeava ninguém na hora de pagar a conta nem ficava com o troco: tudo fofoca!

Mãe, lembra quando quiseram me expulsar da faculdade porque alegavam que meu diploma era falso? Terei teu perdão se confessar que comprei documentos pegando emprestado o dinheiro que separavas para os pobres? Achei justo fazer doação legal para proteger amigos injustamente acusados de falsificação e assim cuidar da tua saúde: não queria que enfartasses ao saber que bebia o dinheiro da mensalidade da escola e que nunca passei do 1º ano do Ensino Médio.

Mãe, não ficaste superorgulhosa na minha formatura em Direito? Não foram legais meus jeitinhos para superar estes pequenos problemas? Depois fiz carreira política, eleições sucessivas, sempre apoiando governos e arrumando boquinhas para meus companheiros, poder, poder, poder e acabei te esquecendo. Ainda moras naquela casinha... onde fica mesmo? Faz tanto tempo.

Mãe, há trustes e offshores em teu nome. Se o japonês da Federal aparecer, inventa uma estória qualquer. Não sei se conseguirás me perdoar, Mãe. Por via das dúvidas, estou na cela me impondo o castigo de escrever ajoelhado no milho. Pensando bem, escondias tudo do Papai e nunca me deixaste de castigo, então, talvez a culpa seja tua, Mamãe. Panta rei.

Ruy Chaves é especialista em Educação

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