Carlos Alberto Rabaça: Cultura da violência e os jovens violentos

O que há de errado numa sociedade, sofisticada tecnológica e cientificamente, que produz tantos assassinatos?

Por O Dia

O Brasil registra 10.520 assassinatos, por ano, de crianças e adolescentes. O país é o terceiro mais violento do mundo para quem tem até 19 anos, dados que integram o estudo encomendado pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). A análise mostra que as mortes de crianças e adolescentes por causas naturais sofreram queda de 78,5% nos últimos 33 anos, enquanto os óbitos por causas externas, denominação que inclui suicídios, homicídios e trânsito, cresceram 22,4% no período.

A violência praticada por jovens assombra o país. Pais, professores e psicólogos se veem atormentados com uma questão de difícil resposta: o que há de errado numa sociedade, sofisticada tecnológica e cientificamente, que produz tantos assassinatos, suicídios e dependência química? A cultura da violência é traço marcante, e sua banalização leva o jovem a aceitá-la na hora de resolver seus problemas.

Algumas lideranças políticas querem enfrentar transgressões com ações isoladas, que vão desde a mudança da legislação a soluções que combatam a violência com violência. O problema desafia os cientistas sociais. O sociólogo Guerreiro Ramos chamou de patologia da normalidade uma doença lesiva ao ser humano, que não se revela como tal à maioria, porque a organização econômica e social dissimula a sua nocividade. Defeito que, quando socialmente padronizado, se torna virtude, afigurando-se como traço de normalidade, veneno do cotidiano cujos efeitos passam ordinariamente despercebidos. Hoje, o comportamento violento dos jovens serve de modelo a outros através da incitação.

É preciso, pois, transformar o valor dominante da psicologia coletiva e a qualidade do modelo social que tornam nefasta a vigência das leis da imitação. O homem existe como unidade da sociedade. Por isso mesmo, está isolado, carece de sentido. Somente quando colabora com os outros se converte em algo valioso. E isso se aprende na família. A criança que é educada com respeito e afeto é ajustada e inteligente não em relação a fatos e imagens, mas ao modo como se comporta, como fala com os outros, como os leva em consideração. O desrespeito ao outro, que é uma forma de violência, começa na infância.

Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor

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