Por pierre

Por vários motivos, é sempre bom ouvir o que anda dizendo um cara podre de rico como o Jorge Paulo Lemann, cuja fortuna beira os US$ 28 bilhões. Ele nem é de falar muito em público, mas esta semana, durante seminário em São Paulo, mandou um belo recado pra galera: “Passei a vida toda fugindo de política e acho isso errado. Os jovens que têm vocação têm que agarrar a oportunidade. É isso que fará diferença no Brasil”. Não costumo concordar com empresários graúdos — até porque estou bem na outra ponta da escala evolutiva econômica. Mas aqui eu concordo com o Lemann. Os jovens têm que voltar a fazer política.

O que o empresário mais rico do país não falou, talvez por falta de intimidade com o assunto, é que política não se faz com paixão, e sim com a razão. Educado na ditadura e perdendo quase todas as eleições de que participei, digo que é essa nossa maneira passional de ver a política (e o mundo) que nos distancia dela. Afinal, são decepções atrás de decepções que nos levam ao fim da paixão e ao fim de qualquer relacionamento com a política. Daí para o divórcio é um pulo. Um pulo para trás.

O problema inicial talvez seja justamente tratar a política com os olhos da paixão. A paixão cega. Quem ama o feio bonito lhe parece. Assim, é a paixão cega por uma determinada linha política que gera o extremista, o fundamentalista, o terrorista. Esses personagens abrem mão do pensamento racional e tratam apenas de ser radicais, vivendo pela pátria, morrendo sem razão. Mau negócio.

Nessas horas, desprezar a razão machuca porque a paixão é baseada em expectativas que podem ter sido válidas em algum momento, mas que caducam e a gente nem percebe. É por isso que o sujeito sofre quando descobre que a namorada não o quer para sempre, como esperado. A esperança não virou realidade eterna.

É essa miopia que provoca insanidades absurdas como a que envolveu a Letícia Sabatella em Curitiba, semana passada. Cercada de pessoas com conceitos e preconceitos diferentes sobre a política, a atriz foi achincalhada, moralmente agredida. Nada, no mundo racional, pode justificar isso (e militantes de esquerda também cometem essas bobagens). Mas tinha que ser logo com a Sabatella? Ok. Assumo. Não posso tratar da Sabatella usando apenas a razão...

Brincadeiras à parte, quem quiser refletir sobre essa questão deve mergulhar em ‘A imaginação totalitária — Os perigos da política como esperança’, do Francisco Razzo. Uma aula sobre as nossas irracionalidades mais arraigadas, e não só na política. Bate fundo.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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