Jaguar: Que cidade é essa?

Em nome do espírito olímpico, “desculpaí”, prefeito. E nem vou reclamar de não poder usar a nova linha do metrô

Por O Dia

A frase ‘Que país é esse?’ não foi inventada pelo Renato Duque, ex-diretor da Petrobras que foi preso pela operação do mesmo nome, nem pelo Renato Russo, da Legião Urbana — um clássico do rock brasileiro que virou um quase-hino contra a corrupção — nem pelos irmãos Caruso, que fizeram um show assim chamado. A frase tinha ficado famosa em 1976, 12 anos depois do golpe de 1964.

Charge de Jaguar para 07-08Charge de Jaguar para 07-08

Na época o Brasil só tinha dois partidos políticos legalizados: a oposição se reunia no Movimento Democrático Brasileiro, MDB, e o partido governista era a Aliança Renovadora Nacional, Arena. O então general presidente, Ernesto Geisel, tinha prometido iniciar um período de transição, em que o regime se tornaria gradualmente mais aberto, e governadores seriam eleitos pelo voto direto dentro de dois anos. Mas a oposição duvidou da seriedade desse compromisso. Isso levou o então presidente da Arena, o piauiense Francelino Pereira, a fazer a famosa pergunta: “Que país é esse, em que o povo não crê no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?”

Agora, com a Rio-2016, municipalizo a pergunta: “Que cidade é essa?” Na quarta-feira, decidimos aproveitar o feriadão e escapulir para a Serra. O Fogo Olímpico estava em trânsito na BR-040, rumo ao Rio e atochava, literalmente, a estrada. A viagem, com o engarrafamento, que demora normalmente hora e meia, levaria o triplo do tempo. Desisti. E voltei para o Leblon Olímpico, onde ficarei confinado, vendo tudo pela tevê.

Outro dia encontrei o coleguinha Moreno, que perguntou se fui convidado para carregar a tocha, como o Ziraldo. “Bem que gostaria, só para recusar, alegando que não fumo” (alguém deve ter lembrado que devolvi a Medalha Pedro Ernesto, depois que o Roberto Jeferson ganhou uma).

Muita gente reclamou depois que chamei o prefeito de estapafúrdio por causa do entrevero com os australianos, em que botou até canguru no meio. Tudo bem. Em nome do espírito olímpico, “desculpaí”, prefeito. E nem vou reclamar de não poder usar a nova linha do metrô, nova em folha, porque não tenho crachá. Os descrachados só poderão ter acesso depois da Olimpíada e da Paralimpíada. 

Isso me fez lembrar a casa de meus pais, quando tinha uns 10 anos. Tinha uma sala em que era proibido entrar, fechada o tempo todo. Só era aberta para convidados. Era mais chique que o resto da casa e onde mamãe tocava seu Chopin e seu Debussy.

Jaguar

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