Por pierre

Entre um jogo e outro, a gente tem que dar uma espiada no que o povo anda falando na internet, à espera das eleições. É meio preocupante. Parece que estamos perigosamente próximos de aceitar os candidatos a tirano que abundam por aí. Seja pela esquerda ou pela direita, não há mais espaço para semitons. É tudo na base da pauleira, meio às cegas, sem reflexão.

Por essas e por outras, é bem pertinente o lançamento de ‘Fabián e o caos’, do cubano Pedro Juan Gutiérrez, um dos melhores escritores latino-americanos dos últimos 20 ou 30 anos. Pedro Juan é uma pedra do sapato das tiranias. Como todo o povo do seu país, ele sentiu profundamente não só as benesses da luta revolucionária de Fidel, mas também suas consequências trágicas. O regime comunista cubano — assim como todas as ditaduras — tratou de amassar sem piedade as liberdades individuais, as escolhas, as paixões, os desejos de seus cidadãos. Fez seu estrago. É contra esse condicionamento idiotizante que Pedro Juan briga. Toda a sua obra merece nossa atenção. Não é diferente em ‘Fabián e o caos’.

Desta vez, temos no centro da repressão política a sexualidade de Fabián, um músico genial que sofre para viver a vida do jeito que bem entende. Foi assim desde criança, quando o narrador, Juan Pablo, o conheceu, antes que seus caminhos tomassem rumos bem diferentes. Como os homossexuais não eram bem recebidos pelo regime comunista (e por nenhum regime), o músico acabou condenado a trabalhar na mesma nojenta fábrica de carne enlatada onde Juan Pablo está pagando alguns pecados por sua vida livre. É lá que os dois se reencontram.

Temos, então, um embate cordial entre dois opostos que se admiram. De um lado, temos o macho Juan querendo viver à parte do sistema, metido em todo tipo de sexo bruto e sem sentido, recusando-se a aceitar a ordem perfeita ditada pela família, pelo governo e pela religião. Na outra ponta temos o medroso Fabián tentando tocar seus amores secretos e pagando caro por isso.

Alternando momentos de surpreendente poesia (para o padrão Pedro Juan) e sua tradicional crueza na linguagem, ‘Fabián e o caos’ é uma porrada certeira nas ditaduras, com as quais temos flertado muito nos últimos tempos, um alerta a respeito da prática totalitária nas pequenezas do dia a dia. Enfim, baita literatura, sem frescurinhas nem concessões.

Um dos recados possíveis de Pedro Juan Gutiérrez é: cuidado com seu apoio irrestrito a quem não vale o prato que come. A vítima pode ser você.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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