Por pierre

Deu no obituário do ‘New York Times’ que Ivo Pitanguy é um dos três brasileiros conhecidos mundialmente. Os outros: Carmen Miranda e Pelé. E o ‘Der Spiegel’, para dimensioná-lo: “É o Michelangelo do bisturi.” Em janeiro de 1973 (há espantosos 43 anos!) foi entrevistado, na sua clínica em Botafogo, pela patota do ‘Pasquim’: Millôr, Ziraldo, Ivan Lessa, Miguel Paiva, Sérgio Augusto, Henfil, Yllen Kerr e eu. Transcrevo alguns trechos:

Millôr: “De todos os homens deste país, considero você o mais realizado. Quando eu queria impressionar, dizia: ‘Meu nome é Ivo Pitanguy.’”

Pitanguy: “Gosto do que faço e me identifico com o que faço. Continuo hoje como comecei na medicina: tenho as mesmas incertezas. Apenas sei o que estou fazendo, o que gosto de fazer e faço com a mesma intensidade.”

Ziraldo: “A medicina sempre foi sua vocação?”

Pitanguy: “Quando vim de BH para o Rio, houve um momento em que me senti médico. Gostava de cirurgia de detalhes. O sentido construtivo está dentro da cabeça de cada um. Tem que ter um curso médico amplo e o máximo de humanismo; a gente adquire cultura até os 20 e poucos anos, depois fica difícil. Em 1945 vim para o Rio. Morei numa república de estudantes. Gostava de cirurgia geral e fui para o pronto-socorro. Fiz um concurso e ganhei uma bolsa para cirurgia geral, ainda no sexto ano. Fui para Cincinatti, Ohio. Quando voltei, me interessei pelos problemas de traumatismo. Ganhei outra bolsa e fui para Paris, onde fiquei mais de um ano.”

Millôr: “Nessa época, a cirurgia plástica ainda era incipiente.”

Pitanguy: “Talvez eu tenha procurado dar a ela um sentido diferente. Quer dizer: coloquei a cirurgia estética e a reparadora como uma única especialidade, sem separá-las.”

Millôr: “Você deu à profissão um charme que ela não tinha.”

Pitanguy: “Senti que a especialidade precisava de uma comunicação no meio médico. Quando comecei a ficar conhecido, tinha uma comunicação dirigida ao meio médico, para levar a especialidade aos ortopedistas e outros colaterais para darem um cunho médico que a afastasse do salão de beleza. Porque era uma especialidade olhada com certo preconceito. Eu queria dar um sentido à divulgação da especialidade.”

Millôr: “Você tem alguma coisa contra o salão de beleza?”

Pitanguy: “Não tenho nada contra nada que seja bem feito. Mas um cirurgião sem preparo nunca poderia dar às pessoas o que elas queriam. Muitos que me procuram não tem condições psicológicas para serem operadas: esperam de mim muito mais que posso dar a elas.” (Continua no próximo domingo. Ou não)

Jaguar

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