Por pierre

Competir, por si só, pressupõe existirem ganhadores e perdedores. Essa simples evidência parece coisa de um passado um tanto distante, já que, na nossa sociedade contemporânea, a competição acirrada se estabeleceu como modo de vida em tudo e para todos.

Nesse sentido, perder e ganhar — situações que naturalmente se alternam — não mais se configuram como naturais. Ao contrário, ganhar, e ganhar sempre, passou a ser a obrigatória lógica atual. Mas não seria essa uma lógica ilógica? Um paradoxo? Um contrassenso? Uma lógica perversa? Parece que sim.

Perversa porque naturaliza o que não é natural; em qualquer competição há ganhadores e perdedores.

Perversa porque, ao naturalizar o ato de ganhar sempre, não admite a derrota.

Perversa porque, ao não admitir a derrota, não prepara quem quer que seja para ela; mesmo sendo uma condição inevitável para qualquer um a qualquer tempo. 

Perversa porque, ao não preparar quem quer que seja para inevitáveis derrotas, não permite que se aprenda a lidar com a frustração.

Perversa porque, ao não possibilitar a vivência natural da frustração, finda por pavimentar o caminho para a desistência e para o adoecimento.

Hoje, muito mais estamos sendo confrontados com notícias de desportistas que desistem de suas trajetórias, com desportistas que são pegos em exames de doping, com desportistas que fazem uso de substâncias psicoativas.

Tudo isso leva a crer que a competição no esporte está perdendo sua finalidade última, qual seja a de ensinar a todos — sem exceção — que a vida é feita de sucessos e de fracassos, de vitórias e de derrotas. E que somente ao experimentar o fracasso de uma derrota, poderemos viver a plenitude do sucesso de uma vitória. O ganho de se permitir a vivência dessas experiências é o de pavimentar o caminho para uma vida física, mental e socialmente saudável.

Rovena Lopes Paranhos é coordenadora do Curso de Psicologia da Faculdade Arthur Sá Earp Neto

Você pode gostar