Por pierre

Isaquias Queiroz, canoeiro humilde de Ubaitaba, Bahia, encheu o Brasil de orgulho remando para a prata contra um alemão bem nutrido. Thiago Braz, 22 anos, brasileiro de Marília, ganhou o mano a mano com Renaud Lavillenie, detentor do recorde mundial do salto com vara de 6,16 m, algo como entrar pela janela do terceiro andar de um edifício só com o apoio de uma vara flexível. Foi mais um episódio inesquecível para a história da Rio 2016. Tarde da noite chuvosa, o corpo estendido até a ponta dos dedos, barriga encolhida, ali estava um atleta do Brasil flutuando a 6,03 m do chão.

O francês, detentor do recorde mundial, diz ter-se desconcentrado pelo barulho na hora do seu salto frustrado de 6,08m, comparando a torcida brasileira aos nazistas que vaiaram Jessie Owens na Olimpíada de Berlim, 1936. Difícil explicar para o francês que a grande maioria daquela torcida nunca tinha comparecido a competição de atletismo, portanto achava natural vaiar o inimigo, mesmo numa prova em que a concentração precisa ser extrema.

Em compensação, aqueles atletas que a torcida apoiou ficaram rendidos. Assim como aconteceu com Bolt, foi tanto carinho para Phelps e seus companheiros, que os americanos do último revezamento estenderam uma faixa agradecendo ao Rio, algo inédito na história olímpica: “Thank you, Rio”.

Dentro de tantas emoções transmitidas pela televisão, vale um comentário sobre alguns narradores de jogos. Em vez de se concentrar na sua função de ajudar a entender o que está de fato acontecendo, começam a torcer pelo microfone, função que cabe ao público.

Acabam caindo em dois tipos de desinformação: a possibilidade de sucesso dos atletas brasileiros, onde não há, e a omissão em relação a atletas que ganham medalhas, mas que não figuravam em seus prognósticos. Chega então a hora das desculpas e explicações dos atletas após cada prova em que o locutor deu falsas esperanças: “Infelizmente não deu deu”, “Valeu pela experiência”, são as mais comuns.
No caso do Thiago Braz não me lembro de nenhum narrador tê-lo colocado como candidato ao ouro. Quem usa o microfone para torcer não tem tempo de fazer análises mais apuradas...

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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